Corrida às compras | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo 29-04-17

Querido Reini,

Muito obrigado pelas cartas. Sexta-feira fui a Orleans e recebi três cartas: a do papai, a da mamãe e a minha própria. Esta última veio muito rápido, pois pelo carimbo já estava em Orleans desde o dia 21 de abril. Trouxe também uma carta tua para o Roberto [Klavin] e um cartão postal para o Arthur [Purim], que eu pude ler. Agora sei como estás passando e como vives. Pensei que esta carta de hoje deveria ser curta, porquê faz só uma semana que mandei uma carta muito, muito longa e depois disso aqui não aconteceu nada importante.

Nós aqui estamos todos bem e com saúde. O tempo está maravilhoso e no domingo passado soprava um vento muito frio. Chegamos a pensar em geadas, mas essas ainda não aconteceram. Porém os dias quentes estão longe para trás. Nas manhãs de neblina a gente já pode congelar. E como está o tempo por lá, está quente ou frio?

Numa das cartas você escreve sobre os rumores do Brasil e a guerra: aqui nada acontece e nada altera a nossa vida. Tudo continua como sempre. Há duas semanas correram rumores ou boatos de que o Brasil teria declarado guerra contra a Alemanha, porque esta teria afundado quatro navios cheios de café com destino a Inglaterra. Depois fiquei sabendo que não era verdade. Aqui o povo tem por moda, quando ouvem qualquer coisa, fazer um estardalhaço tremendo. Não tendo mais navios não haveria mais comércio; nem toucinho conseguiríamos vender, devido à interrupção total da ligação com outros portos. Durante uma semana o único comprador de toucinho foi a venda do Pinho, que através de sua fábrica de banha continuava trabalhando.

Devido a esses boatos [sobre a guerra] houve uma corrida às compras. Todo mundo saiu a comprar, pois com a chegada dos invasores “prussianos” nada mais haveria para ser comprado. Agora voltaram a comprar o toucinho, só que pagando menos, 10$300 a arroba – e agora que voltaram a comprar não querem pagar o preço anterior, mais alto.

Agora correm notícias, através de jornais de Porto Alegre, de que lá houve grandes desordens e que os alemães se comportaram com hostilidade contra os brasileiros em defesa de sua “Faterland”. Também em todo Rio Grande, porque os sócios das Sociedade de Tiro trazem em seus chapéus o emblema da “Deutschland”, brasileiros e italianos teriam se vingado destruindo os grandes estabelecimentos comerciais, metalúrgicas, etc, de propriedade dos alemães.

Dizem que aqui mesmo em Braço do Norte os soldados brasileiros estão vigiando os alemães. Mesmo aqui em Orleans, o Grünfeldt começou a se vangloriar e contar vantagens defendendo os alemães e logo foi ameaçado de levar uma surra. Ele tratou logo de fugir para não terminar na cadeia. Até agora realmente nada de mal aconteceu.

Quanto à Igreja de Rio Novo, nada de novo parece ter acontecido, e nada do que acontece em suas reuniões de negócios eles contam – mas com o passar do tempo eu fico sabendo. Hoje mesmo teve uma longa sessão, na qual o Maisin foi excluído do rol de membros e o Anz foi admitido. Continua a disputa pelos bens do Manemes, pois até o Butler e o Seeberg foram a Tubarão. Não sabemos quantas vezes eles já foram e ou quantas vezes terão ainda que ir. Pois aqueles quatro que vieram de baixo, quando você ainda estava em casa, tiveram que pagar 400$000 de seu próprio bolso.

Quanto a nossa Igreja [do Rodeio do Assucar] nada de novo tem acontecido, tudo velho.

Bem, hoje penso que chega. Você não está precisando de blocos para cartas? Se você quiser posso mandar, pois aqui posso conseguir estes blocos por 1$300, e são bem melhores que os
seus. O papel ai é caro? Como tu te vestes? Você tem com que se vestir (com orgulho)? E o Inkis é orgulhoso? E como é a esposa dele? Há entre os teus professores algum deles que sejam duros? (além do normal)

Desejo a você tudo de bom. Viva saudável.

Com muitas lembranças,

Olga

(Escrito nas laterais)
Se você mesmo lava a sua roupa, não deixe fora no varal durante o tempo em que está na aula, pois a senhora Leiman contou que o Karlis teve as dele roubadas durante o tempo que estava na escola, e por isso você deve ficar atento a essas coisas…

(No outro lado)
Se você quiser saber notícias da guerra pergunte ao “Jurka“1, pois ele sabe mais que todo mundo junto. Nas quartas-feiras ele conta notícias em roldão. A última é que sob a ponte de Laguna (Rio Pratas?) os alemães teriam colocado minas explosivas, para levar tudo pelos ares quando quiserem. Se fosse para escrever tudo que ele conta numa noite só já daria para encher o couro de um boi inteiro. Ele ganha do Ludi de longe; é pena que não tenha como ele uma gráfica…

* * *

1. Jurka. Provavelmente algum Juris; talvez o Juris Klavin.

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