Batismos no Laranjeiras e o Jornal da Moda | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 15-4-17

Querido Reini,

Eu tua carta, que recebi 13 de abril, você reclama que não chega nenhuma carta. Naquele mesmo momento comprei um cartão postal e mandei naquele mesmo dia. Talvez a essa altura você já tenha recebido nossas cartas e esteja a par dos acontecimentos daqui. Mas, como temos coisas novas, vou contando.

Aqui vamos bem e saudáveis. O tempo agora é bom e o céu limpo. Faz mais de uma semana que não chove. Os dias de outono não são quentes e as manhãs são frescas e com neblina. Meu trabalho agora é colher milho, arrancar inhame, trazer para casa e engordar os porcos, porque o toucinho está com bom preço: 12$000 a arroba, e a banha 18$000 a arroba.

A Páscoa passou maravilhosa. A semana que antecedeu chovia muito, mas já na quinta feira limpou. No domingo de Páscoa fomos ao culto na casa dos Leimann. Como já tinha escrito, seria feita uma coleta para Missões Nacionais. A coleta rendeu 37$00, mais 10$00 da Escola Dominical e mais 5$00 da Sociedade Missionária.

Na segunda festa da Páscoa fazemos um grande viagem para Laranjeira (em português no original) para a festa de batismos. Na igreja1 tinham sido aceitos o Augusts Klavin, a Margrida (que não tinha sido batizada da outra vez porque o pai não tinha autorizado) e mais um candidato da igreja de Pedras Grandes.

A igreja decidiu que desta vez os batismos seriam no Rio Laranjeiras. O dia estava magnífico. De manhã cedo cavalgamos perto do Salto do Beker e entramos mata adentro. O caminho na mata estava muito lamacento; na subida do morro e também na descida a chuva abriu profundas valetas. O rio não estava muito cheio, mal chegou a água encostar na barriga da [égua] Zebra. Mas chegamos bem.

O povo tinha chegado de todas as partes, e muitos nunca tinham visto coisa igual. O Roberto já tinha vindo na primeira Festa [Domingo de Páscoa] à tarde e passado a noite. O candidato ao batismo morador em Pedras Grandes não veio, e não ficamos sabendo o motivo. Então o pai da Margrida mudou de idéia: não deixou que ela fosse batizada, porque os parentes vieram e encheram-lhe a cabeça, dizendo que se ela se batizasse nunca mais acharia um casamento, e a moça ficaria perdida para todos os tempos. Então ficou o Augusto sozinho.

Primeiro foi realizado um culto na casa de Cassiano, que estava quase pronta. Daí fomos a pé até o rio logo ali perto. O batismo foi realizado pelo Arthurs [Leimann]. O povo todo se comportou solenemente. Voltamos para a casa, onde houve outro culto, também dirigido pelo Arthurs. Tivemos bastante oportunidade de cantar com todo entusiasmo e alegria.

Agora começamos a nos preparar para o retorno para o lado de casa. Ainda fomos obsequiados com café, doces e bolos; cantamos o hino 36 de Cantor Cristão e então nos separamos. Na volta para casa o Robert [Klavin] nos guiou por outro caminho. Cavalgamos beirando o rio abaixo por um longo trecho, depois atravessamos e seguimos ainda mais um grande trecho rio abaixo; atravessamos a roça de um italiano e terminamos saindo na estrada do Rio Novo na altura, ou melhor, um pouco além da casa da filha do Klaumann.

Essa estrada era bem melhor, porquê não tinha morros para subir nem tanta lama. Para mim foi uma experiência muito interessante, pois havia muito o que ver, morros e grotas diferentes onde corria o rio de águas límpidas e transparentes.

Voltando para casa a cavalo éramos treze, como foi no Natal: Roberts, Arnolds, Juris, Augusts, Arthurs, Leimans, Emma, Lonija, Milda, Schenia [Eugenia], Luzija [Purim] e eu, e ainda Avelino e três dos Paegles. Chegamos em casa de noite todos saudáveis e felizes, pois apesar de tudo nenhum mal nos não aconteceu.

Assim passamos a Páscoa. E você, o que fez na Páscoa?

Nas oitavas da Páscoa o Artur Paegle casou-se com a Frida Hilbert, e quem deve estar com o chapéu cheio de felicidade é a Mille [Emilia Frischembruder, mas tarde casada com Osvaldo Auras]. Deu certo gosto nela, pois há tempos ele vinha dizendo que não gostava de baixinhas e gordas, e sim de moças lindas, e esta é. Mas sobra ainda um desastre, pois ele não fala alemão e ela não fala nem leto nem brasileiro. O que se espera é um novo idioma.

O Willis Paegle está muito doente: machucou-se levando uma forte pancada quando trabalhava na tafona, que o deixou desacordado por longo tempo. Chegaram a falar da necessidade de ser levado ao hospital, mas não sei se foi levado ou não.

Você pergunta se O. [Oskar Karp] vai ou não. É inútil você ficar esperando: ele não vai mais, porque a cauda está muito firmemente presa. Agora L. vai quase todo domingo junto de braço dado. Algumas pessoas dizem que brevemente será anunciado do púlpito. Então se apronte para o casamento, mas quando será ainda não, sei. Agora eu descobri que já há tempo ele não queria ir; só não queria contar a você, por isso vinha dizendo que iria. A senhora Karp lamenta que O. tenha deixado lá muitas roupas, dois cobertores, dois travesseiros, lençóis e fronhas e outras roupas às dúzias, que, com todo esse tempo, já devem ter crescido. Poderia por tudo isto no enxoval, mas agora o pobrezinho tem ficar sem enxoval.

Agora no Rio Novo tem sido feita uma boa estrada. O imposto da fumaça não será mais necessário pagar, mas cada colono deverá dar uns dois ou três dias de trabalho para a manutenção da estrada. Agora a estrada daqui de casa até Orleans está boa, porque todos — italianos, letos e alemães — foram trabalhar enchendo valetas, consertando pontes e explodindo pedras. E por sorte, na época em que foi consertado não choveu e o caminho foi compactado, senão teriam se formado grandes lamaçais. Melhor é ir trabalhar e ter a estrada boa do que pagar 5$00 e a estrada continuar naquele péssimo estado.

No Rio Novo acho que não tem acontecido nada especial. Parece que eles não tiveram nenhuma festa de Páscoa porque grande parte acompanhou a caravana que foi a Mãe Luzia. Até o próprio [?] parece que também foi para arranjar uns genros, mas se conseguiu não sei.

Na semana passada chegou uma carta para você do Salomão [Ginsburg, diretor da Casa Publicadora Batista, editora do Jornal Batista], cobrando o Jornal. Você ainda não pagou? Ele oferece a condição de que quem pagar até fins de junho e mais 1$500 poderá receber o “Jornal da Moda” como cortesia. Eu te peço que aceites esta proposta e que a assinatura deste outro jornal também seja efetivada; para tanto, quando mandarmos dinheiro, mandaremos mais o correspondente a essas despesas. Você consegue ler o Jornal? Gostaríamos de continuar recebendo, porque assim nos consideramos grandes brasileiros.

Você mantém correspondência com Ludi [Ludvig Rose]? Nós lhe escrevemos mas não obtivemos resposta. E Karlis tem escrito para você? Depois que você foi embora não recebemos mais nenhuma notícia dele.

Penso que por hoje chega. Todas as coisas mais importantes daqui eu descrevi. Ouvi falar que o Brasil teria declarado guerra a Alemanha, mas não sei se é verdade, porque aqui o povo basta ouvir falar para ir dizendo que é verdade.

Agora vou aguardar de você uma longa e completa carta. – Ainda, muito sinceras e profundas saudações do papai, da mamãe, da Lúcia [Purim] e do Artur [Otto Purim]. Viva saudável, alegre e feliz.

Sua Olga

* * *

1. Na igreja. Naquela época havia em Orleans duas igrejas batistas: uma, mais antiga, no Rio Novo propriamente dito, junto à escola, e outra na cidade de Orleans, resultado de uma separação da igreja de Rio Novo no tempo que o pastor Carlos Leimann era seu líder. Carlos Leimann seguiu pastoreando a igreja em Orleans, que tinha pelo menos duas congregações filiais: uma em Rio Laranjeiras e outra no Rodeio do Assucar, na casa dos Leimann. Era desta última que participavam os Purins e seus amigos que assinam as cartas. A igreja de Orleans (bem como seu ponto de pregação em Rodeio do Assucar) preocupava-se mais com a evangelização dos brasileiros do que a igreja em Rio Novo; aparentemente esse havia sido o motivo da divisão em primeiro lugar.

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