Uma falha no Novo Testamento | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Antunes Braga1, 9 de abril de 1917

Querido amigo Reynold!

A tua carta escrita no dia 17 de março recebi no dia 4 de abril, pela qual agradeço. Desculpe não ter respondido antes.

No dia 1º de abril, domingo, estivemos em Orleans, e a igreja recebeu o meu irmão Augusto para o batismo. O empregado do Onofre disse que viria quando tivesse uma ocasião, mas como ele não veio a igreja decidiu dar oportunidade no dia do batismo: se ele viesse, seria chamado para a profissão de fé. A Margarida não foi chamada, pois já tinha sido aprovada em 1915. A igreja determinou para 9 de abril a data dos batismos no [Rio] Laranjeiras, junto à casa do Caciano de Medeiros e, como pastor para efetuar os batismos, o Artur Leiman.

Depois chegou um recado do Onofre, dizendo que o empregado dele não estaria nesse dia no Rio Laranjeiras. Na Sexta-Feira Santa fomos eu e o Artur Leiman solicitar autorização do Caciano de Medeiros para usar a propriedade dele para esse fim, se bem que de antemão tínhamos certeza de sua aquiescência. Também precisávamos providenciar um lanche para os visitantes que viessem de outras localidades. Tudo foi acertado, inclusive o abrigo para a troca de roupas.

Também começaram as dificuldades com o pai e a mãe da Margarida, que não queriam que ela se batizasse, mas ele ia decidir até sábado.

Viemos para casa e paramos nos Leiman para o culto, agora com novas reformas que acabaram de ser implantadas: uma é que a leitura bíblica é feita em português. Em seguida é feito um ditado para fixação do texto, e somente depois é estudada a lição.

[Ali] também o Artur contou os problemas com a Margarida e outros de Rio Larangeiras. A Sra. Kolegene achou que isso representava uma reclamação, e entendeu que diante das dificuldades de acesso deveriam abandonar este trabalho — idéia esta que foi refutada por todos, principalmente pelo grupo de voluntários, que não medem esforços para estar sempre lá.Pedro, o alemão, tinha encontrado uma falha no Novo Testamento.

No domingo pela manhã, depois das atividades normais da igreja, fui para o Rio Laranjeiras terminar de cuidar das providências para as atividades do dia seguinte. Ali contaram que o tal Pedro, o alemão, tinha encontrado um erro, uma falha no Novo Testamento: haveria uma passagem sobre dois irmãos que viviam em determinado lugar; um dele teria atravessado três colunas de fogo e ido para o céu, e como nada lá fosse bom, teria voltado e dito ao outro irmão que para o céu nunca fosse.

O Caciano então me perguntou se eu sabia ler em alemão e eu disse que sabia, se bem que não muito bem. O Caciano determinou que o Pedro viesse e trouxesse o seu Novo Testamento em alemão: ele veio todo prosa, e quando foi pedido que mostrasse o trecho mencionado ele levou um tempo imenso e apresentou um trecho que nada tinha daquilo que ele tinha falado. Li em alemão, traduzi e depois li o mesmo trecho em português: ficou comprovado que ele tinha inventado toda a história.

Depois que o Caciano deu um apertão ele disse que achava então que tinha lido no Cantor Christão. Depois ele procurou outra passagem; quando eu li e provei que nada do que ele falou havia nesta passagem, o Caciano entrou diplomaticamente no assunto, solicitando que ele estudasse direito e em outra oportunidade continuariam os esclarecimentos.

À tarde fui aos Paegles visitar o Willis, que teve um acidente mas agora já está andando. Ele estava trabalhando na atafona [engenho de farinha] e chegou perto da roda dentada; nem ele sabe como, mas bateu a cabeça com uma violência tal que ficou desacordado e assim ficou várias horas. Quando voltou a si estava todo ensangüentado, com o carretel dentado caído junto dele. Sangrava pelos ouvidos e tinha alguns dentes quebrados, e junto dele os eixos e as rodas giravam a toda velocidade. Assim mesmo sangrando ele foi fechar a água para parar a roda d’água, e depois foi se arrastando até a casa. Por vários dias continuou sangrando pelos ouvidos; nos primeiros dias ele se alimentou somente de leite e hoje está ainda com um dente quebrado e outro deslocado, e a cabeça toda inchada.

Dos Paegles fui de volta para o Rio Laranjeiras e pousei na casa do Caciano, para no dia seguinte aguardar os convidados e visitantes de Rodeio do Assucar e outros. Lá pelas 10 ½ da manhã começaram a chegar os brasileiros da localidade, e um pouco mais tarde chegaram os mesmos que tinham estado no Natal, com exceção do Wilis Slegmann que desta vez não veio.

Atravessaram os morros, enfiando-se por caminhos quase fechados pelo mato para chegar até o Rio Laranjeiras.

No domingo o pai da Margarida não apareceu, mas disseram que ele estava firme no “não” para que a filha não se batizasse. Logo chegou a hora dos batismos: depois de um culto na casa de Caciano nos dirigimos para o local junto ao rio. Ali, depois de cantados diversos hinos e lidos um trecho da Bíblia e uma dissertação pelo Artur sobre o batismo bíblico, foi batizado o candidato. Ambas as margens estavam cheias de gente, que se comportou dignamente — e, sendo assim, não houve o mínimo incidente durante o evento.

Voltando para casa do Caciano ainda cantamos diversos hinos, antes de tomarmos o caminho de casa.

Quanto à igreja, vai um tanto difícil, pois o Artur Paegle enamorou-se até as orelhas pela “calça larga” do Hilbert e a Margarida está apaixonada pelo alemão Pedro. Para nós é um tanto complicado administrar essa situação; o que a Igreja determinará neste caso, não sei.

Quanto ao Rodeio do Assucar2, vai tudo a mesma coisa. O Arturs [Leimann] ainda está em casa, e se ele vai embora não sei. Muita gente está fazendo tudo para que ele não se vá.

Quanto à igreja de Rio Novo, não sei como está. A estrada desde a Canela3 até Orleans, que estava muito ruim, foi totalmente consertada pelos rionovenses.

Quanto a tua saída daqui, não sei se alguém se alegrou. Se isso aconteceu, não fiquei sabendo.

Bem, por hoje chega. Escreva logo que puder. Lembranças de meus pais e finalmente as minhas.

Teu amigo Roberts [Klavin]

* * *

1. A “Linha Antunes Braga”, onde moravam os Klavin, ficava mais ou menos um quilômetro adiante da casa dos Leimann no Rodeio do Assúcar. Esta “Linha” ficava já na vertente que tende para Grão Pará e Braço do Norte. O forte da colonização dessa localidade era polonesa. Mais precisamente seria a “Alta Linha Antunes Braga”, que também fazia parte da microbacia da Invernada.
2. Rodeio do Assucar é um pequeno vale onde passava a antiga estrada de Imaruí, que tomava o rumo da serra. Nos lugares limpos, como nos pastos, até há pouco tempo viam-se marcas profundas características, formadas pelas pegadas das mulas. Devia haver variantes mais antigas, pois os Klavin encontraram na propriedade deles, que fica bem mais adiante na Invernada, as mesmas trilhas profundas, mas já com perobas crescendo – e pela contagem dos anéis concêntricos foi confirmado que este caminho, naquele lugar e naquela época já tinha sido abandonado há mais de 80 anos. Lendas dizem que era um pouso das tropas que transportavam charque e outros produtos serra abaixo e que levavam sal, ferragens e açúcar para o planalto. Neste lugar uma das tropas teria sofrido um ataque dos índios, e muito açúcar teria ficado esparramado. Há também lendas sobre uma bruaca cheia de ouro, pertencente a Anita Garibaldi, que teria sido enterrada em suas margens, durante sua fuga de Laguna para Curitibanos. Outra versão diz que, por falta de uma ferramenta própria, como uma pá, Anita teria afundado o tesouro num banhado. Rodeio do Assucar é também o nome de um pequeno rio, onde os Leiman tinham um engenho de farinha de mandioca. Esse rio, juntando-se ao rio do Rodeio das Antas e ao rio Carlota, forma o rio Barracão.
3. Canela, encruzilhada no final do vale do Rio Novo. Neste ponto a estrada se dividia, indo à esquerda para Coxia Seca e Brusque, à direita para Rio Carlota, Rodeio do Assucar, Barracão, etc.

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