As partes negativas | Robert Klavin a Reynaldo Purim

Antunes Braga, 27-III-17

Querido amigo Reynhold!

A tua carta escrita no dia 10 de maio eu recebi no dia 25, e por ela agradeço. Li com muito interesse, pois muitos lugares e aquela estrada para São Paulo para mim são conhecidos. Só não o trecho de São Paulo para o Rio de janeiro, que é para mim inteiramente desconhecido.

Primeiramente vou escrever alguma coisa daqui. No primeiro domingo depois da sua partida fui ao Rio Laranjeiras. Senti-me um pouco esquisito por ter que ir sozinho e não como antes, que estávamos acostumados a ir juntos. Mas nem por isso. Fomos lá e dirigimos a Escola Dominical e no final a Maria falou que a Margarida da Silva quer se juntar à igreja. Como podes ver foi um momento de grande alegria de que tive a oportunidade de participar; agradeço a Deus esta tão maravilhosa ocasião, e espero em Deus ter novamente momentos de tanto enlevo espiritual.

As reuniões da Escola Dominical são realizadas naquela casa nova que tu viste sendo construída, mas não está bem pronta. No domingo passado houve nova repetição da lição e todos sabiam o Texto Áureo de cor. Estou ensinado novos hinos e deixando eles mesmo escolherem o que gostam de cantar.

As lembranças que tu mandaste eu já entreguei e eles pediram para transmitir as mais efusivas saudações. Também foi matriculada uma nova aluna, a Joana Fernandes1. Neste primeiro domingo do mês eu esperava que houvesse oportunidade para profissão de fé dos novos convertidos, mas não deu.

No segundo domingo viajei sozinho para Braço do Norte2, para visitar o Onofre Regis. Ali também tive ocasião de passar momentos maravilhosos que compensam regiamente os esforços e trabalhos nestas missões. No domingo celebramos um culto regular e neste dia um dos trabalhadores do Onofre Regis se decidiu ao lado do Senhor e pediu a sua inclusão na igreja. Como podes observar os tempos estão mudando, e as pessoas estão sentindo a necessidade — inclusive uma empregada do Regis e uma irmã dela mudaram inteiramente o seu comportamento e já manifestaram o desejo de pertencer à igreja.

A dificuldade continua sendo a mãe, que é católica e muito desprovida de inteligência e cultura, tendo verdadeiro pavor da palavra “rebatizar”, como se fosse coisa do outro mundo. As duas irmãs não fazem mais parte da Igreja Católica e estariam prontas para o batismo, não fosse a intransigência da mãe. Tanto o Regis quanto eu deixamos claro que decisões desta magnitude devem ser tomadas com uma avaliação muito séria das circunstâncias, como bem adverte a Escritura. O Regis é um grande propagandista da fé e ambos são um exemplo no testemunho, e acho que os letos tem muito que aprender com eles.

A Igreja de Rio Novo comemorou o Jubileu de 25 anos de fundação e todas as famílias da nossa igreja [em Rodeio do Assucar] foram convidadas individualmente por escrito (carta). Também o Irmão Onofre foi convidado, com um convite para a Igreja de Pedras Grandes. Ele mandou uma resposta clara e firme, dizendo que não existe mais nenhuma Igreja em Pedras Grandes, e sim a Igreja Batista Brasileira de Orleans.

Estes convites foram um tanto políticos, mas mesmo assim alguns da nossa igreja acabaram indo, como o Arnolds, os Slengmann e dois filhos dos Paegle. Dizem que o programa da festa foi muito longo, com muitos hinos pelos coros e conjuntos, e solos tantos longos quanto curtos. Também veio a Banda de Música do cinema de Orleans, aproximadamente 16 músicos, que entre as suas apresentações trouxeram marchas, etc. A noite houve a segunda parte da festa, que também foi demorada, pois foi permitida a participação de oradores locais, que se esbaldaram de falar.

As partes negativas foram uma discussão, quase uma briga, que os letos teriam fomentado entre os negros e os brasileiros, ocasião em que foi só tamanco que voou; outra foi que, enquanto os velhos falavam sobre o passado e sobre o futuro da igreja, os rapazes se abasteciam de cachaça e vinho numa bodega improvisada dentro da capoeira pelo judeu caolho que tem a bodega lá embaixo na barra do Rio Novo. Ele ia ficar bem perto da igreja mais foi expulso dali, por isso pôs o seu “negócio” dentro da capoeira, provocando um mal estar geral, com alguns moleques de cara cheia.

Quando estivestes em São Paulo viste os meus parentes? Agora aguardo tua carta do Rio. Como estás gostando da vida da cidade grande e da rotina dos estudos?

Concluindo, desejo que sejas diligente e perseverante em teus estudos para que possas ir em frente e, cumprindo etapas, atingir o alvo que tens por frente. Pois eu não o esquecerei em minhas orações.

Seu Robert [Klavin]

* * *

1. Joana Fernandes era minha avó, mãe de Verginia Fernandes Purim.
2. Braço do Norte era uma estação da Estrada de Ferro D. Tereza Cristina, abaixo de Pedras Grandes. Deve ser esse o lugar a que a carta se refere, também conhecido como Barra do Braço do Norte. Nossa afirmação se baseia no verbo usado para “viajar”, brauzu, que denota embarcar em alguma viatura rolante (talvez trem), e também no fato de que a cidade que hoje se chama Braço do Norte naquele tempo chamava-se Quadro do Norte.

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