SOBRE A VIDA NO BRASIL E SEUS RESULTADOS | Parte 1/2

por Alexandre Klavin, primeiro pastor a chegar da Letônia para pastorear a Igreja Batista do Rio Novo

 

Informo apenas que estou aqui em Rio Novo [NOTA: Rio Novo, a colônia, encontra-se a 12 km da estação ferroviária de Orleans do Sul. A jusante do rio Tubarão, até o porto de Laguna, percorre uma ferrovia]. Na colônia, pela observação, vejo que aqui as coisas andam e andarão…

Minha viagem durou quase dois meses. Ao chegar [a Orleans] fui recebido por amigos, irmãos e irmãs da colônia leta de Rio Novo. Cavaleiros e carros de boi vieram me receber na colônia Rio Novo. Fomos honrados com diversos portais elaborados com palmeiras e guirlandas de flores, bem como um jantar preparado com muito amor.

Então, no primeiro domingo, assumi como pastor da igreja. Surgiram dificuldades: onde arranjarei terra? Nas proximidades não há. Soubemos que um colono próximo da igreja quer desfazer-se das suas duas propriedades e mudar-se para outro lugar. Na terceira derrubada a terra já está exaurida e nada mais se desenvolve.Então teremos que negociar, mas negociar com a seguinte condição: terei que comprar as duas casas com todos os pertences.

O assunto foi devidamente avaliado: o lugar está à mão, bonito e agradável, com pastagem formada e diversas fruteiras, reconheci que não poderia demorar e comecei a negociar. No inventário havia sete animais grandes e alguns pertences. Somando tudo, no contrato paguei 600 mil réis (mais ou menos 200 rublos, mas a terra terei que pagar em separado). pelo conjunto das duas colônias, perfazendo 150 “purvietas”.

[NOTA: Cada “purvieta” (medida de área usada na Letônia) mede 0,4 hectares. 150 purvietas, ou seja, 60 hectares, custaram 600 mil réis; então cada hectare custou 10 mil réis, e o comprador ainda continuou pagando à Empresa Colonizadora o saldo devedor.]

Assim de imediato tornei-me proprietário com sete animais grandes. Fui presenteado com mais ou menos 70 galinhas, porcos, gansos, perus, cabras e ovelhas, somando umas 100 cabeças…

Agora, com a chegada do líder espiritual dos letos, a igreja achou por bem doar 100 diárias em regime de mutirão. Imediatamente encaramos o trabalho, para que até o Natal a casa esteja pronta.

Embora estejamos vivendo na mata virgem, quando o problema é construção há grande dor de cabeça, porque madeira apropriada para construção não há muita e temos que transportá-la por duas ou três [purvietas] de distancia, e é bastante difícil.

Porém quando há boa vontade e um pouco de dinheiro é possível construir uma boa residência, e pelo visto terei a melhor e mais bonita casa em Rio Novo. Ela está sendo construída com diversas madeiras fortes e valiosas. Aqui as casas são construídas com esteios, e entre os esteios são colocados pranchões. A minha casa é construída com as seguintes madeiras: os esteios são de “louro” e “canela”, os barrotes e linhas são de “peroba” e “pinheiro”, e as paredes de “cedro” e forro de “baguaçu”. De madeiras duras e valiosas há acima de dez variedades, que devemos conhecer bem antes de construir.

[NOTA: Nos esteios era feitos sulcos onde eram encaixadas as pranchas para as paredes.]

Ao adquirir a propriedade, havia uma considerável derrubada, onde plantei mais ou menos uma “puspura” de milho [maiz (espanhol) ou grão-turco (italiano)], e pelo que vejo, creio colher em torno de 30-40 “puru” pelas contas habituais.

[NOTA: “Puspura” quer dizer “metade de um purs”. “Purs” é uma unidade antiga de capacidade usada na Letônia; equivalia a algo entre 70 a 100 litros e era usada para centeio, cevada, ervilha, etc. Por exeplo: “Neste saco cabem dois purs de batatas.” Talvez haja alguma semelhança com o nosso alqueire, mas o nosso tinha somente 36.7 litros.]

Plantei também algumas raízes para os animais e para os humanos. As raízes são mandioca, aipim, cará, batata doce, batata baroa ou salsa e batata inglesa. No período do inverno podemos plantar todas as raízes e sementes cultivadas na Europa. Parreiras são cultivadas em todas as propriedades e há boa produção.

Quero contar como aqui se cultiva a terra. O colono, ao entrar pela primeira vez na mata virgem com a serra, o machado e a foice, utiliza primeiro a foice. Ela é uma ferramenta como um machado curvo, na ponta de um longo cabo. Com esta ferramenta, ou “faca de mato”, cortam-se os cipós e a vegetação baixa antes de aproximar-se das grandes árvores.

As derrubadas de agosto podem ser queimadas em outubro e em seguida planta-se milho, arroz, feijão preto, outras culturas e raízes. A plantação é feita com auxilio da enxada. Uma bolsa com sementes é pendurada ao pescoço e a cada quatro pés cava-se o chão, colocando-se no burcao de cinco a seis sementes de milho.

Assim, com aproximadamente uma “pura” [0,4 alqueire, medida de capacidade] pode-se com uma garnicu plantar, quando se tem, quatro “purvietas” [1,6 alqueires, medidade de área] de derrubada; já é suficiente.

Uma derrubada como essa é melhor quando da primeira queimada: no primeiro ano quase não há necessidade de limpeza. Numa derrubada como esta pode-se plantar durante dois anos seguidos, depois [deve ser] deixado para recuperar. Após dois anos já cresceu um mato alto com muita folhagem.

Na outra roça — derrubada a foice a capoeira de 2-3 anos de idade e após um mês de secagem, — pode-se queimar e plantar o que desejar. Essa roça é às vezes melhor do que a primeira, porque a terra é fofa, as raízes e tocos das grandes árvores terão apodrecido em sua maioria.

Numa terra como essa todas as raízes da Europa podem ser semeadas: elas crescem aos pulos. Porém há um problema: enquanto as plantas de desenvolvem tenho que com frequência usar a enxada para eliminar as plantas invasoras, que crescem com grande velocidade.

Uma roça como essa é chamada de “roça de capoeira”, e nela podemos plantar por três anos seguidos, mas todos os anos após a colheita devem ser queimadas as ervas daninhas.

Depois de três anos de uso da terra deixamos para que cresça nova capoeira, que aniquila as plantas daninhas. Após 3-4 anos de recuperação uma “nova mata” terá crescido, e será beneficiada como da primeira vez.

Na terceira derrubada a terra já está exaurida e nada mais se desenvolve. Ainda assim, com a enxada se capina a camada superior: a vegetação rasteira é queimada e se planta mandioca ou aipim. Essas raízes se desenvolvem em terras desgastadas. Quando a cana de açúcar é cortada, aí planta-se mandioca ou aipim.

continua

 

Alexandre Klavin, 1900
Publicado no Majas Viesis (O Visitador do Lar) número 12, de 21 de março de 1901
Traduzido Por Valfredo Eduardo Purim
Notas por V.A.Purim

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