1898: A primeira visita de um pastor leto à Colônia | Parte 3/3

As primeiras famílias de letos deixaram a Letônia para o Brasil em abril de 1890; nos anos seguintes foram seguidas por muitas outras. Jahnis Inkis (leia sobre ele aqui) foi o primeiro pastor enviado da Letônia para conhecer a colônia do Rio Novo, em 1898. Apresentamos, em três partes das quais esta é a terceira, as porções do seu relatório de visita pertinentes à história dos letos de Rio Novo.

 

As moradias, maiores ou menores, todas de madeira. Cada colono se esforçou em construir maior número de quartos. Dois compartimentos, no mínimo devem existir, onde se alimentar e onde repousar. Com este principio até os antigos citadinos aderiram. A cozinha, conforme costumes dos brasileiros, é separada dos outros compartimentos; a vantagem é que a fumaça não penetra.

Com o aquecimento ninguém está se importando, também não há chaminés em nenhuma das moradias. Durante as geadas todos tremem, principalmente durante o anoitecer e pela manhã. É só cobrir-se com lenços, mas logo após o sol raiar o frio desaparece e o sol aquece tanto quanto no verão na Europa; então os trabalhadores tiram as roupas pesadas.

Os compartimentos das moradias são bastante simples. Uma mesa e bancos sem pintura para sentar. Cadeiras com encosto são coisas raras. Não houve tempo para cuidar do conforto e da ornamentação. E assim mesmo há grande diferença nas moradias entre os colonos de outras origens. Aqui há assoalho e forro, nas outras sentam no chão e observam coberta de palha. No barraco dos brasileiros, em poucas palavras, não há nada. Comem, dormem e sentam no chão.

[…] Ao par de uma bacia com uma galinha frita com mistura de raízes cozidas, que chamam de batata-doce e aipim. Ao provar, preferimos as batatas, de sabor adocicado e farinhentas. Após saborear as raízes e os tubérculos, também experimentamos pão feito com farinha de milho,e a dona da casa nos oferece uma torta de bananas.

O arroz os colonos produzem em suas plantações. O beneficiamento é feito no pilão e com os grãos e o leite é feita uma deliciosa sopa. Plantam-se nabos, repolhos, beterrabas…

Ao prudente colono também não falta carne. No cercado vibra uma meia centena de galinhas, gansos e perus.

Enquanto observamos, o colono aparece com um machado nas mãos, vai ao mato para a derrubada. Nós, certamente iremos juntos. Pela porteira, pelo caminho, pela pastagem, vamos em direção a mata.

A pastagem por onde estamos passando foi implantada com grande sacrifício. Anos antes aqui havia mata. A mata foi derrubada e queimada. Após a queimada foi plantado milho e depois grama. O quê, a grama foi plantada manualmente? Sim, com as mãos. Na mata não havia grama, o capim que cresce espontaneamente nas plantações não serve para pastagem. A grama é uma pastagem própria.

As árvores derrubadas que ainda não apodreceram são utilizadas em parte para lenha e o restante permanece na pastagem. Em alguns lugares as palmeiras levantam sua majestosa copa para o alto. O colono derruba todas as árvores, mas as palmeiras, quando há, são poupadas pela sua beleza. Além disso, a palmeira não produz sombra, inconveniente, para as outras plantas. Com exceção da árvore ganoba, que os letos comparam à liepa, todas as demais são pesadas como chumbo — ao derrubar as árvores, o colono deve estar atento.

A mata virgem possui muitos cipós e arrastam junto outras árvores. A área de mata a ser derrubada é primeiramente roçada; eliminam-se em seguida as árvores menores e os cipós com uma foice, para depois as árvores maiores serem derrubadas com auxílio do machado e do serrote (topiador). A mata, depois de derrubada, permanece secando de agosto a novembro. Em outubro o sol escaldante da primavera e os ventos secos secam totalmente a mata derrubada.

As folhas e os galhos menores estão totalmente secos. Então, num dia de muito calor, um grande rolo de fumaça branca sobe da derrubada. À fumaça seguem chamas ardentes: o colono faz sua queimada.

Alguns dias depois, com uma enxada e sementes, ele começa o plantio. O trabalho da derrubada e sua plantação é a mais difícil das atividades do colono. Especialmente durante o plantio, o sol é escaldante…

No centro da colônia, numa elevação, levantaram uma casa de oração, onde cada domingos todos religiosamente comparecem. Os moradores, com mínima exceção, são todos batistas: a Igreja foi fundada e durante seis anos permaneceu sem pastor. Os membros contam mais ou menos com 200 pessoas.

Com a dispersão dos mais crescidos, à igreja comparecem crianças para o seu culto. São aproximadamente 30 crianças. Sem escolas, os rionovenses carecem também de um médico.

No que se refere ao governo e a justiça, os rionovenses não tem nada melhor a desejar. Todas as divergências são discutidas na chamada assembleia dos colonos. A presidência da assembléia é função de delegado da justiça. Além das assembleias dos colonos também há em sua sede as chamadas assembleias administrativas, onde todos podem participar e são discutidos assuntos pertinentes a administração.

Por Janis Inkis

Publicado no Majas Viesis (O Visitador do Lar) 1898, números 46-48 (inicio do registro no n° 45). Traduzido por V. A. Purim. Cortesia de Brigita Tamuza.

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