1898: A primeira visita de um pastor leto à Colônia Rio Novo | Parte 1/3

Por Jahnis Inkis

Publicado no Majas Viesis (O Visitador do Lar) 1898, números 46-48 (inicio do registro no n° 45). Traduzido por V. A. Purim. Cortesia de Brigita Tamuza.

As primeiras famílias de letos deixaram a Letônia para o Brasil em abril de 1890; nos anos seguintes foram seguidas por muitas outras. Jahnis Inkis (leia sobre ele aqui) foi o primeiro pastor enviado da Letônia para conhecer a colônia do Rio Novo, em 1898. Seguem, em três partes das quais esta é a primeira, as porções do seu relatório de visita pertinentes à história dos letos de Rio Novo.

 

[…] Quando as famílias passaram a ocupar seu terreno designado e construíram seu barraco de palha, não se encontravam mais debaixo dos olhares alheios. Sem perturbar os mais próximos, os homens começaram a derrubar a mata, então todos se sentiram melhor. Trabalhando aumentava a força e a esperança por dias melhores. As árvores caíam uma após outra e na mata bruta surgiam espaços ensolarados. Quando foram colhidas as primeiras espigas de milho e as donas de casa com farinha nova faziam pão, então para parte dos novos colonos parecia que com o Brasil poderiam se acertar. Então foi fundada Rio Novo, primeira e até agora a maior colônia leta no Brasil.

Nas proximidades, distante quatro horas de caminhada para o oeste, fundou-se outra colônia leta, denominada Oratório. Esta se encontra mais distante da cidade e em lugar mais montanhoso que Rio Novo. Ali a ocupação ocorreu mais tarde, por letos vindos de Riga e Liepaja. Mas lá não ficaram. Levantaram como aves de arribação e voaram para a província de Rio Grande, ao sul de Santa Catarina, mais distante do Equador, onde o clima é mais frio. Algumas famílias também saíram de Rio Novo, juntando-se aos de Oratório. Este foi um passo imprudente. Os letos não deveriam se espalhar, mas viver juntos.

As cartas que durante este período foram remetidas para a terra natal transmitiam variadas noticias: pessoas mais esclarecidas, que esqueciam o difícil presente e esperavam um melhor futuro, escreviam a realidade, porém outros em suas cartas descreviam condições nada agradáveis, retratando os aspectos mais negativos. Seus parentes na terra natal não entendiam. Ficou por costume a cada emigrante a recomendação: “você nos escreva a mais completa verdade”. E pelas correspondências ninguém podia saber a verdade — embora em todas as cartas estivesse a mais completa verdade…

Entretanto, abandonando a divulgação do Novo Mundo e as custas de viagem, o governo brasileiro deixou de fornecer passagens gratuitas. Assim mesmo surgiam pessoas que partiam para o Brasil: este eram da província de NovGorod (Rússia), aos quais dificuldades não afugentavam. Estavam acostumadas a elas desde que saíram da terra natal e acamparam nas matas de NovGorod. Lá estavam com certa estabilidade e alguma prosperidade, mas almejavam algo melhor. Estes eram viajantes destemidos e colonos experimentados. O governo alemão não permitia transpor suas fronteiras, alegando a possibilidade de serem portadores de vírus de cólera. Esses imigrantes navegaram até a Suécia e de lá para a Holanda, em seguida atravessando a Alemanha para só depois embarcar para o Brasil.

Os letos vindos de NovGorod não se estabeleceram em Rio Novo; uma parte deles se desviaram para as proximidades de uma cidadezinha habitada por alemães, Blumenau, fazendo seu acampamento nos seus arredores e ficando por lá definitivamente. Opinavam que lá as terras eram mais férteis que as da colônia Grã-Pará, onde se encontra Rio Novo. Enquanto isso outros encontraram, na distância de dois dias de viagem, umas terras à margem do Rio Mãe Luzia, e em suas correspondências apregoavam suas vantagens, atraindo para lá um grupo de letos.

Desse modo, os letos no Brasil se estabeleceram em quatro lugares distantes uns dos outros…

Neste período a unidade dos patrícios não foi padronizada. Pensavam assim: “Desde que já percorri este longo caminho, quero então procurar o melhor lugar do Brasil…” Vejamos, amigos, que para cada vantagem encontrada há sua correspondente desvantagem. Sendo assim, alguns se transferiram três ou quatro vezes, até cansarem, ou então até acabarem os recursos para novas buscas, pelo que se obrigaram a aceitar a área e as condições em que se encontravam. Passam os anos e os maus resultados da vagueação começam a tornar-se visíveis em maior quantidade, enquanto benefícios não são visíveis.

Quatro templos e quatro escolas certamente serão mais difíceis de construir do que para todos uma só igreja e uma só escola. As crianças crescem cada vez mais e a necessidade da escola é cada vez maior. Uma pequena parcela dos letos mora nas cidade; esses últimos parecem ter esquecido as razões, os motivos da imigração da terra natal, onde também moravam na cidade e onde poderiam ter ficado. Queriam ser agricultores, mas a agricultura não era o seu forte e aconteceu que permutaram a cidade da terra natal pela cidade brasileira, sendo que a última não tinha a oferecer os mesmos benefícios da primeira.

Neste resumo passamos em revista a imigração dos letos ao Brasil e seu acampamento na mata bruta. Agora vamos visitá-los e observar como vivem…

Conseguimos passagem de Bremen até Desterro [hoje Florianópolis], capital de Santa Catarina… Viagem de navio por 5 longas semanas… após algumas semanas avistamos as costas do Brasil.

À distância parece ser uma grande nuvem azul; ao aproximar-se se vê: não são nuvens, mas uma cadeia de montanhas. Das montanhas chega até nós um aroma agradável. Durante mais uma semana atracamos em diversos portos brasileiros, até chegar ao final da jornada, a província de Santa Catarina; em sua capital, Desterro, deixamos o navio.

(continua)

6 comments on “1898: A primeira visita de um pastor leto à Colônia Rio Novo | Parte 1/3

  1. Sonia Preiss Spona diz:

    que preciosidade! Pastor Inkis era tio da mamãe (filha de João e Natalija Peterlevitz). Terei muitas aulas hist;orica nêste site…

  2. antonio mATEUS diz:

    Caro irmãos letos, havia aquí em Sergipe,mais precisamente em Japaratuba, uma missionaria leta chamada Zenia Biersniek, muito querida por aqui, que faleceu em 2012 com 94 anos, após anos de ministerio. Um membro da igreja Batista de Aracaju me contou esta história:

    Certa feita, em uma Igreja Batista da Letônia, durante a escola dominical, um dos membros da igreja se levantou e falou por alguns minutos em uma lingua diferente, depois voltou a se assentar. Logo após, um outro homem se levantou e disse : este homem não está louco. Ele acaba de falar na minha lingua, o portugues . Ele disse que Deus está mandando que voces vendam suas propriedades e se mudem para o Brasil, pois esta nação será entregue a um regime politico terrivel onde será proibido até o culto a Deus. E assim, as familias começaram a se mudar para o Brasil formando colonias letas no Brasil.

    Eu gostaria de saber se esta historia procede , se sim, o porquê não é divulgada.

    Antonio Mateus
    Aracaju/SE

  3. V. A. Purim diz:

    João Reinaldo.
    Favor preparar uma resposta para que eu possa publicar.
    Ponha a sua ficha técnica prá saber quem importante você ser
    Abraço.
    Viganth Arvido Purim

    Resposta dada pelo Pastor João Reinaldo Purin

    OLÁ, Viganth Arvido, respondendo, só posso dizer que tudo isto é verdade. Segundo consta, aconteceram manifestações sobrenaturais e avisos para que fugissem para o “deserto” que segundo os intérpretes concluíram ser o Brasil. Mais detalhes estão no livro do Ronis a partir das páginas 191.
    Quanto à maior divulgação do fato só posso dizer que nem todos se interessam por fatos que já vão longe. É só procurar os livros à disposição, o “ Uma Epopeia de Fé” por Osvaldo Ronis, o “Da Aurora ao Crepúsculo” por Emília Tupes e outras publicações, tais como “ O Jornal Batista” números antigos e também da literatura na língua leta publicada na época. O fato é que nem todos se interessam sobre o assunto, a não ser alguns como o irmão Antônio Mateus, pelo qual agradecemos. É só pesquisar, pois o material existe.
    Um abraço.
    Jotaerre

    De: vapurim@gmail.com [mailto:vapurim@gmail.com]
    Enviada em: 27 de julho de 2014 17:22
    Para: João Reinaldo Purin
    Assunto: Fw: [Colônia Leta do Rio Novo] Comentário: “1898: A primeira visita de um pastor leto à Colônia Rio Novo | Parte 1/3”

    • V. A. Purim diz:

      Olá,Viganth Arvido, respondendo, só posso dizer que tudo isto é verdade. Segundo consta, aconteceram manifestações sobrenaturais e avisos para que fugissem para o “deserto” que segundo os intérpretes concluíram ser o Brasil. Mais detalhes estão no livro do Ronis a partir das páginas 191.
      Quanto à maior divulgação do fato só posso dizer que nem todos se interessam por fatos que já vão longe. É só procurar os livros à disposição, o “Uma Epopeia de Fé” por Osvaldo Ronis, o da “Aurora ao Crepúsculo” por Emília Tupes e outras publicações, tais como O Jornal Batista números antigos e também da literatura na língua leta publicada na época. O fato é que nem todos se interessam sobre o assunto, a não ser alguns como o irmão Antônio Mateus, pelo qual agradecemos. É só pesquisar, pois o material existe.
      Um abraço.
      Jotaerre

    • V. A. Purim diz:

      Olá,Viganth Arvido, respondendo, só posso dizer que tudo isto é verdade. Segundo consta, aconteceram manifestações sobrenaturais e avisos para que fugissem para o “deserto” que segundo os intérpretes concluíram ser o Brasil. Mais detalhes estão no livro do Ronis a partir das páginas 191.
      Quanto à maior divulgação do fato só posso dizer que nem todos se interessam por fatos que já vão longe. É só procurar os livros à disposição, o “Uma Epopeia de Fé” por Osvaldo Ronis, o da “Aurora ao Crepúsculo” por Emília Tupes e outras publicações, tais como O Jornal Batista números antigos e também da literatura na língua leta publicada na época. O fato é que nem todos se interessam sobre o assunto, a não ser alguns como o irmão Antônio Mateus, pelo qual agradecemos. É só pesquisar, pois o material existe.
      Um abraço.
      Jotaerre

  4. antonio mATEUS diz:

    Agradeço a resposta dos irmãos.

    Fico impressionado como Deus, por uma única ação salva dois povos, pois, ao mesmo tempo em que livrava os crentes do regime comunista (socialista) da União Soviética, criava uma obra missionaria no Brasil.
    A irmã Zênia Biersniek, uma missionaria batista leta em terras sergipanas, teve um árduo trabalho. Quando ela começou seu trabalho por aqui, mais precisamente no povoado São José, municipio de Japaratuba/SE, atuando também como enfermeira, o padre local disse à população que se alguém permitisse ser tratado pela irmã Zênia, queimaria no inferno ainda vivo.
    A missionaria continuou mesmo assim, e foi aos poucos ganhando a confiança da população e sanando esta mentira.

    Conheci a referida missionaria em uma convenção batista na Primeira Igreja Batista de Aracaju -PIBA. Ela já bem velha em uma cama hospitalar, que trouxera para a igreja, para acompanhar as mensagens. A alegria da irmã Zênia chamava a atenção. No intervalo ela ficava sentada na cama para poder falar com irmãos, que vinham aos montes falar com ela. Pensei, preciso colher um depoimento dela para fazer um documentário sobre esta história. Demorei, e ela se foi. Uma pena. Mas outros já contaram este fato.

    Um abraço irmãos.

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