…se tudo correr bem, depois das colheitas eles nos viriam visitar. | De Lucia Purim para Reynaldo Purim 1922

Rio Novo 7 de maio de 1922

Querido maninho! Saudações!!

Como o Arthur já escreveu as cartas e amanhã ele quer levar para a cidade então eu também quero escrever um pouquinho para que o envelope vá mais cheio e você saiba de mais novidades.

Nós graças a Deus estamos todos bem. O tempo está chuvoso e quente e tudo está mais verde que na primavera, os passarinhos estão cantando como fosse primavera, mas só os dias estão ficando mais curtos.

Você recebeu os nossos documentos que mandei no dia 24 de abril. Se recebestes, já sabes bastante sobre as novidades daqui. Na segunda feira dia 4 o Willis Slegmann chegou e logo que terminar os trabalhos aqui vai embora definitivamente. O Otto Slengmann já foi embora quando o Stroberg viajou para Kuritiba. Ele não gostou nada de Nova Odessa, ele tinha pensado que lá era mais bonito. Também a Shene Mattch [Eugenia] veio junto com o Slengmann. Aquela tinha ido embora quando o Jahnis foi para o Rio de Janeiro, pode ser que ele já tenha contado para você. Ela teria dito que nem que tivesse ir embora de joelhos ela iría e nunca mais voltaria. Que a Milda [Mattch] tratava-a muito mal e que ela tinha que ir trabalhar na roça sozinha. Tudo ela tinha que fazer e a Milda não ajudava em nada. Então seria melhor ir embora de casa. Viu com que rapidez ela esqueceu de todas suas resoluções, quando realmente ficou longe de casa. Só pensou de voltar o mais rápido possível, mesmo que sem honra. Em São Paulo tinha conseguido um bom emprego e estava ganhando 100$000 por mês, mas lá ela tinha que cuidar 3 pequenos cachorros. Que nada, a saudade foi forte demais e veio embora mesmo.

Também quem está de volta em Kuritiba é o Jekabs Schmidt. Ele foi para Varpa, mas não agüentou o regime nem o programa lá estabelecido. Também não sabia falar nada em brasileiro.

O Stroberg [Karlos Stroberg foi um pastor muito conhecido em todo Sul do Brasil batista] saiu-se melhor lá, pois ele aprendeu logo um pouco em brasileiro e a mamãezinha dele ensinou que a paciência e a persistência e também na Escola Dominical tinha aprendido que as dificuldades e sofrimentos podem com tempo serem superadas. Ele mandou uma longa carta para a Escola Dominical aqui aonde ele conta como ele abriu uma Escola Dominical para os brasileiros e como eles vivem por lá.

Bem vou terminar se não você não vai conseguir terminar de ler.

Você tem mandado os jornais? Estou esperando também o “O Crisol”, [O Crisol foi uma das primeiras publicações do Dr. Reynaldo Purim] então mande junto.

Na semana passada a Olga recebeu uma carta da Lilija [Lilija era filha de Jekabs Rose e prima do Reynaldo] e entre outras coisas ela diz que se tudo correr bem depois das colheitas se possível eles nós viriam visitar.

Muitas e amáveis lembranças de todos daqui. Luzija
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..deixando para traz mais de 9 leguas a cavalo…| De Carlos Leiman para Reynaldo Purim – 1921

Castelo ( ES ) 25 de julho de 1921

Caro Reinhold

Saúde!!
Ontem cheguei de volta de Vitória, onde passei um mês inteiro viajando, estou agora deixando para traz mais 9 léguas a cavalo [ quase 60 quilometros], estarei em casa no sábado para começar as aulas na segunda feira.

O tempo está muito frio e chuvoso e o povo está doente com a gripe espanhola.

Em Vitória foi ordenado para o Ministério o Almir Gonsalves e para o ano que vem nós estamos convidando para trabalhar aqui o Arlindo e o….

Não tenho recebido notícias de nenhum dos lados. Você tem escrito? Com sinceras lembranças.

Teu Carlos Leiman.
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Published in: on 2012/01/20 at 19:39  Deixe um Comentário  
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..Se preocupam com a luz espiritual. | Viagem de Karlis Andermanis para o Brasil – 1905

A Viagem de Karlos Andermann e senhora.


Publicado no Jornal denominacial “Avots”, (A Fonte) de 23 de junho de 1905:
Traduzido por Viganth Arvido Purim
Material gentilmente cedido por Brigita Tamuza da Letônia

-.-

“K. Andermann e senhora embarcaram em Riga em data de 8 de junho para Hamburgo e de lá para o Brasil para junto aos nossos patrícios na colônia de Rio Novo onde serão os professores.

Os colonos construíram o prédio da escola e mandaram o dinheiro da viagem. Podemos verificar que nossos patrícios nas matas virgens do Brasil se preocupam pela luz espiritual.

Desejamos de todo coração que Deus conduza os Andermann e os abençoem em seu novo campo de trabalho.”

Published in: on 2011/12/31 at 16:23  Deixe um Comentário  
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, com toda certeza e convicção, … | De Roberto Klavin para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 6 – II – 1921

Caro amigo!

A tua carta do dia 19/12/20 recebi já, há algumas semanas atrás, mas desta vez, mais por preguiça deixei de responder.

No tocante ao assunto escola, eu posso afirmar de minha parte, com toda certeza e convicção, pois não é uma coisa qualquer e estou absolutamente convicto, quanto a minha pessoa que não tenho forças e não estou apto para assumir tão imensas responsabilidades. Entendo que para aceitar um tão grande desafio são necessárias energias, dons e uma vontade férrea, para chegar a um bom termo. Tenho pensado durante anos e estou convencido que não tenho conhecimentos básicos suficientes para enfrentar um tão grande desafio.

O meu irmão Augusto viajou dia 8 de janeiro, a passeio à São Paulo e Nova Odessa. Quando ele já tinha viajado, ficamos sabendo que ele tinha sido “sorteado” para servir o Exercito e se passar no exame médico, poderá servir lá mesmo em São Paulo.

Quanto o trabalho missionário em Rio Larangeiras no ano passado sofreu um grande abalo, quase dissolvendo. Durante o Natal e Ano Novo não teve nenhum trabalho especial por lá. Agora devagar está voltando ao normal. Todos de lá te mandam muitas lembranças.

Finalizando, envio muitas lembranças do teu amigo.
Roberto Klavin

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Published in: on 2011/12/03 at 19:46  Deixe um Comentário  
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Depoimento de J. A. Zanerip | Na Rússia também tem Araranguá

Agora com quatorze aninhos de vida, achei que não teria futuro na vida grudado no cabo da enxada de sol a sol, portanto resolvi procurar aprender a profissão de marceneiro. Assim um dia fui a Orleans à procura do excelente marceneiro Guilherme Feldmann, mas ele me disse que não era possível, pois já tinha três meninos enchendo o saco dele todos os dias.

Na volta de Orleans passei na oficina de ferreiro do Sr. Artur Paegle e perguntei se ele poderia me ensinar a malhar o ferro. Respondeu que ia pensar. Passado algum tempo, voltou perguntando se ainda queria aprender a profissão. Respondi que sim. Então ele me propôs dar a pensão, cama e mesa — banho não precisaria pois água tinha bastante no rio. Só que teria trabalhar dois anos sem salário, isto é, de graça — ou melhor, em troca dos ensinos dos segredos da profissão, como era praxe naqueles tempos. Claro que aceitei.

Apesar de não ser tão perto, todo sábado eu ia para casa.

Um dia, nessa viagem para casa, parti um pouco mais tarde do que costumava fazer. O sol já havia descido e começava a escurecer quando cheguei a um lugar onde o Eduardo Karklin tinha plantado milho. Na beira da estrada ele tinha deixado de derrubar uma árvore enorme. Quando eu já ia passando por baixo dela vi uma macacada em seus galhos, e já corria aquela história dos bichos.

Eu sempre levava uma garrucha escondida na cintura; vendo aquela macacada nos galhos, tirei a garrucha e quis atirar, mas lembrei que macaco tem o rosto parecido com o da gente. Guardei a garrucha e só bati palmas.

Ai meu Deus! Meus cabelos ficaram de pé. Aquela bicharada caía como se fossem novelos de algodão, até na estrada dura e quase em cima de mim (por azar dias antes eu tinha lido histórias sobre bichos na África). Fiquei duro, pois nem da garrucha não me lembrei.

Quando me recuperei do susto não vi mais bicho nenhum. Só ai é que voltei a lembrar da arma, e para meu consolo tirei da cintura e dei um tiro em direção do mato.

Na verdade não eram macacos e sim quatis. Dizem que os quatis quando se assustam pulam dos galhos para escapulir. Correm de pé, isto é, nas patas traseiras.

Mal eu tinha começado o meu aprendizado minha mamãe vendeu o sítio e foi para São Paulo. Fiquei só eu para continuar aprendendo a profissão.

Vencido o primeiro ano, um belo dia informei ao meu patrão:

– Quero ir para São Paulo. O senhor vai me deixar ir?

Ele resmungou em alemão mas não disse nada. Uns dias mais tarde ele me chamou junto a sua escrivaninha e disse:

– Você não vai para São Paulo, de hoje em diante vai ganhar dois mil réis por dia — o que naquela época era uma ótima proposta.

Aguentei mais três meses, mas um dia eu disse:

– Quero ir embora para São Paulo sim. Isto é, se o senhor me dispensar.

Ele não respondeu, mas após alguns dias me chamou e disse:

– Já que queres ir, então vá.

Me deu uma camisa de presente e uns cinquenta mil réis e me dispensou. Já no dia seguinte fui a Laguna comprar a passagem para ir de navio para Santos, porque naqueles tempos era o único meio de se ir para São Paulo.

O seguinte acontecimento eu deveria ser contado antes do período de nossa ida à escola, mas por um lapso e esquecimento deixei de contar o que faço agora:

Certo dia correu a notícia de que os gaúchos tinham se revoltado e iam descer a serra. O delegado, sabendo que os gaúchos vinham, mandou uns soldadinhos esperá-los na boca da serra, mas os gaúchos quando souberam se dispersaram.

Não demorou muito veio outra notícia: os gaúchos já tinham descido a serra e vinham trazendo junto todos homens adultos, cavalos, vacas, porcos e mantimentos para alimentar a tropa. Nos tínhamos um cavalo e uma vaca e bastante porquinhos. Os porcos nós soltamos do chiqueiro, o cavalo e a vaca levamos para a mata virgem, onde os amarramos e onde também viemos a pernoitar. Deste pernoite nasceu uma frase no meu “Poema do Centenário”:

Pousar nesta densa mata, a noite era escura e sombria
Só vaga-lumes como estrelas errantes se viam
Grilos, rãs e sapos por todo lado gemiam
Parecia uma novela de terror que exibiam

Como o meu irmão Carlos já era adulto teve que ir junto com a tropa de revolucionários. Ele pegou a sua espingardinha pica-pau e foi.

Pernoitaram numa várzea, e ao amanhecer o dia resolveram marchar sobre Orleans, mas logo foram barrados por meia dúzia de soldadinhos do delegado. Um deles disparou um tiro pro ar e os valentes revolucionários se dispersaram como se fossem ratos.

Foi um salve-se quem puder. Só alguns trouxas, pensando que não tinham nada com a revolução, foram presos e levados para Orleans. Entre eles estavam o Jacob Karklis e o Vitorio Maisin, sendo que cada um levou vinte e quatro palmatórias em cada mão. Voltaram todo machucados, a revolução acabou sem graça e só os inocentes e os covardes apanharam.

Agora, voltando a falar da minha despedida do Rio Novo: ao chegar na agência do porto em Laguna, falei ao chefe do porto:

– Quero uma passagem para Santos — mas como eu ainda falava mal o português, ele me perguntou qual era a minha nacionalidade. Respondi que era leto.

– Leto — disse ele. — Mas como que aqui no documento diz que seus pais são da Rússia?

Respondi que os russos tinham invadido a Latvia/Letônia.

– Certo, mas onde você nasceu?

– Em Araranguá — respondi eu.

Surpreso, perguntou-me:

– Ué, na Rússia também tem Araranguá?

Então respondi que não era na Rússia e sim logo adiante de Criciúma. Pobre de mim. O homem virou uma fera. Berrou ele que esse negócio de russo, alemão e italiano, que isto tinha que acabar.

– Você fica sabendo quem manda no Brasil é brasileiro, viu? Você nunca mais me diga que é isso aí que você falou, entendeu?

– Sim, senhor! Sim, senhor!

Passada a fúria ele preencheu a passagem e me deu com um sorriso amarelo. Como o navio ia demorar cinco dias para chegar, voltei para a casa do meu cunhado e irmã Alvina.

Na véspera da minha partida tive uma agradável surpresa: veio uma turminha da gentil mocidade dizer adeus. Cada um com seu bolinho e seu docinho, e minha irmã deu café com leite. Comeram, beberam, cantaram e por fim desejaram boa viagem e breve regresso.

Entre esta turminha havia uma donzelita com a qual eu tinha brincado desde criança. Parecia um amorsinho infantil, mas agora já tinha mudado muito, eu com dezesseis anos e ela com treze.

Ao se despedir ela perguntou:

– Volta logo?

Aí eu respondi:

– Quem sabe — e convidei: — Vamos juntos?

Ela respondeu com os olhos rasos de lágrimas:

– Agora não, mas se você quiser um dia irei sim!

Sabe, diante desta situação fiquei com uma vontade de não ir mais para São Paulo.

Após todos terem ido embora, já no silêncio da noite, me ajoelhei e pedi ao Senhor que me desse uma boa viagem e que me concedesse a graça de viver todos os dias no temor do seu Santo Nome. Lembrei daquela donzelita que ficou chorando.

Se ela for a minha eleita faça-me voltar para buscá-la. E se minha eleita conforme a sua vontade estiver em São Paulo, então que seja a primeira que eu por lá encontrar. Não importa que seja feinha ou bonitinha, de gente abastada ou pobrezinha. Só peço duas coisas: primeiro que tenha o verdadeiro temor pelo seu Santo Nome. e segundo que realmente goste de mim — sendo assim, terei absoluta certeza de uma vida muito feliz.

Agora, já no dia seguinte bem cedo, fui a Orleans a fim pegar o trem para ir a cidade de Laguna, onde era o porto — lá onde ao comprar a passagem do navio tinha levado aquela tremenda bronca já contada nas páginas anteriores.

À noite, já a bordo do navio, começou a viagem que durou duas noites e dois dias, para chegar as nove horas da noite na cidade de Limeira, em São Paulo.

Pernoitei, e no dia seguinte saí à procura de um posto de gasolina onde o Guilherme Slengmann, que era proprietário de um caminhão, talvez fosse conhecido. Ele era amigo meu.

Tive sucesso logo no primeiro posto onde indaguei, ele era conhecido por ser freguês. Então perguntei se o homem do posto sabia onde ficava a [fazenda] Boa Vista e ele realmente sabia. Orientou-me a apanhar o trem das nove horas e voltar até a primeira estação, de onde ainda distava mais quatro quilômetros. De lá seria mais fácil conseguir as informações que faltavam para conseguir a localização do meu destino final.

Após seguir essas instruções, foi fácil chegar próximo à tal fazenda. Neste instante saìa de um terreiro um comprador de frangos e quando perguntei se ele conhecia muita gente por aqui, ele respondeu que sim. Então perguntei se ele conhecia o tal Guilherme Slengmann. Ele respondeu que não.

– De todas pessoas que eu conheço nenhuma se chama Guilherme.

Aí contei que eu tinha um irmão o Carlos que trabalhava com o Guilherme e esse Carlos era muito conhecido e muito prosa.

Aí o frangueiro perguntou se ele era gordo. Respondi que era só um pouco corpulento. Aí ele perguntou se era russo. Respondi que sim e expliquei que assim os letos eram chamados. Então ele disse:

– Sim, deve ser o seu irmão, monta aqui na carroça, pois eu vou te levar até bem perto.

Em certo momento ele parou e mandou seguir até uma cerca e depois virar à esquerda; era lá que morava um russo que deveria ser a pessoa que eu estava procurando.

Chegando à dita casa bati palmas e os cachorros começaram a latir. Logo alguém abriu uma janela e apareceu uma linda donzelita. Logo surgiu o pai dela, ao qual pedi a informação. Quando ele chamou a mocinha “Melania natz schurp” [Melania, vem cá] logo percebi que eram letos.

Perguntei em leto se sabiam onde morava o Carlos Zanerip. Aí ele perguntou de onde eu tinha vindo. Respondi que tinha vindo do Rio Novo, Santa Catarina. Então ele disse:

– Entra e descansa, e conta como vai a nossa gente por lá. Lá mora um irmão meu que é pai do Artur Purim (cujo nome eu tenho esquecido).

Entrei e a donzelita fez um saboroso lanche. Foi neste momento, quando ela trazia, lembrei do meu pedido ao Senhor. Pois eu não tinha visto ninguém, nem mesmo o pai dela, no momento que ela surgiu na janela.

E quando voltei à fazenda fiquei estupefato. Lá de onde eu havia abordado o frangueiro, a menos de duzentos metros, vivia meu irmão Carlos. Alguns metros adiante morava o Guilherme Slengmann, e logo no outro lado do córrego vivia o Guilherme Och. Mais adiante morava o Guilherme Ivercen, todos bem conhecidos do frangueiro — que tinha esquecido de todos para levar-me a conhecer primeiro a linda senhorita Melania Purim.

Apesar de tanta evidência, nossos caminhos não se cruzaram. Só atrapalhou minha vida por longos anos. Talvez tenha sido porque não cheguei a contar isto a ela, por muito respeito que a ela eu dedicava. Não contei por receio de ser mal interpretado ou incompreendido.

Isto foi em 1931, e só contei a ela num Congresso Leto em Nova Odessa em 1978 apenas — só para arrancar um sorriso de dois velhinhos que esperavam a longa noite chegar.

Porque o Senhor já disse: “Os meus caminhos não são os vossos caminhos, os meus pensamentos não os vossos pensamentos” e também a minha escolha era outra. Deus também diz que bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor, e Deus de um lar também.

* * *

[continua...]

Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 1

Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

1

Durante longos anos cultivei em meu coração um desejo: antes de morrer quero rever meu irmão mais velho, que não vejo há quarenta anos, desde quando nos separamos em Jaunjelgava. Inúmeras vezes roguei a Deus com este objetivo, que me proporcionasse o caminho, que a Sua vontade me fosse favorável.

Alguns meses atrás este meu desejo se realizou, quando encontrei amáveis companheiros de jornada, que também me ajudaram quanto à língua portuguesa. Embora o caminho por terra não seja longo, por mar viajamos quatro dias, do porto de Santos até Imbituba, que é um pequeno porto no estado de Santa Catarina. Era sábado de manhã quando tomamos assento no trem de bitola estreita e partimos rumo Orleans. Oito quilômetros à frente nos aguarda a Colônia Rio Novo, composta de imigrantes letos.

A viagem [de trem mostrou-se] deveras interessante: temos que atravessar um braço de mar [NOTA: Lagoa do Imaruí, ponte de Cabeçudas], e a ponte ultrapassa um quilomêtro de extensão. Em Orleans chegamos às 4 horas da tarde. Saindo da composição ferroviária, meus companheiros de viagem, conhecendo a cidadezinha, dirigiram-se à residência da família Stekert, para lá deixar as malas e em seguida, aliviados do peso, seguir a pé para Rio Novo.

A irmã Stekert não permitiu que saíssemos sem demonstrar sua hospitalidade. A mesa estava posta com um gostoso café e pão com manteiga. Agradecemos a Deus, servimo-nos e apressamos rumo ao Rio Novo.

O sol se pôs e continuamos com o luar. Caminhamos conversando e fazendo conjecturas, tendo em vista que estaremos surpreendendo os parentes, aos quais de propósito não demos qualquer notícia. Veremos: será que me reconhecerão?

Os companheiros mostram e contam: aqueles montes pertencem ao irmão tal, aquelas planícies pertencem ao irmão fulano; aquela é a residência do irmão Slengman, aquela outra do irmão Frischembruder. Está vendo aquele monte com uma mata? Sim, vejo. Veja, aquela terra é do seu irmão.

Andando mais um trecho vemos na beira do caminho uma construção feita com esmero. Meus companheiros perguntam se posso adivinhar que construção é esta. Como poderia saber? Eles dizem: é o templo da Igreja Batista Leta de Rio Novo, onde amanhã estaremos orando a Deus e ouvindo o evangelho.

Caminhando mais um trecho vemos mais uma casa. Os companheiros informam:

– Olhe, esta é a residência do seu irmão.

Meu coração começou a disparar. Como será o reencontro? As janelas todas escuras, todos dormindo. Meus companheiros me conduziram até a casa, me deram uma lamparina para eu bater palmas sozinho e acordá-los. Os companheiros permaneceram ocultos na escuridão aguardando os acontecimentos.

Vejo, abre-se uma janela. Uma voz pergunta:

– Quem é o senhor?

– Sou um viajante e procuro pousada.

– Mas o senhor é desconhecido… Diga quem é?

– Diga ao proprietário que venha me reconhecer — respondo. — Ele já me viu muitas vezes, pode ser que possa me reconhecer.

Chega o irmão à janela, olha e diz:

– Eu também não conheço o senhor.

– Então, por favor, venha para fora e me veja de perto.

Dirijo a luz da lamparina para meu rosto para que ele veja melhor e digo:

– O senhor certamente me viu centenas de vezes; não consegue lembrar?

Meu irmão meneia a cabeça e afirma que não me conhece mesmo. Minha cunhada, sendo lépida e ágil, diz:

– O senhor será o Purens?

– Sim, sou eu mesmo! — respondo, e começamos as alegrias do reencontro, os cumprimentos, a surpresa e os convites: entre, entre! Entre!

Meus companheiros de viagem são Guilherme Klavin e sua irmã Marta, que estão aqui porque foram convidados para o casamento de seu irmão mais velho, Roberto, que será na semana seguinte em Mãe Luzia, onde a noiva reside. Até a residência dos pais deles são mais sete quilômetros; com o auxilio da lamparina, despediram-se e seguiram adiante.

Começamos então a conversar com meu irmão, e logo nos aprofundamos em interrogações e troca de informações e experiências.

Enquanto conversávamos a ágil dona da casa estava na cozinha. Não tínhamos terminado a primeira etapa da conversa quando a mesa já estava posta e uma amável voz chamava:

– Por favor, viajante, venha ao jantar!

Agradecemos a Deus e comi com satisfação, pois tínhamos caminhado por longo trecho. Fomos conduzidos à sala de visitas, [e pudemos] louvar a Deus e agradecer-lhe pela Sua Misericórdia e proteção aos Seus filhos, por como Ele ouve nossas preces e mostra Sua Benignidade em todas as ocasiões. Acima de tudo, meu coração se alegrava e louvava a Deus porque encontrei meu irmão e seus familiares amando a Deus, lendo a Bíblia, orando todos os dias. O espírito cristão introduziu raízes profundas na vida desta família. Que o eterno Deus dos profetas e apóstolos os mantenha em permanente crescimento até o fim, quando Cristo voltar em sua plenitude.

Começo a perguntar:

– Onde está o Artur [Otto], seu filho?

Respondem que viajou para Mãe Luzia, foi buscar a noiva, trazê-la para cá e realizar o casamento [NOTA: Artur Purim era o meu pai, e o casamento dele com minha mãe, Verginia Fernandes, realizou-se no dia 25 de setembro de 1931]. Que surpreendente e feliz oportunidade! Assim, sem saber, cheguei exatamente na ocasião das bodas!

Conversamos mais alguns assuntos e o cansaço nos venceu, sendo que o relógio marcava mais de meia–noite. Mamãe soneira nos convida ao seu regaço e diz: durmam, para que o bondoso Deus vos conceda novas energias.

continua aqui >

Published in: on 1932/10/06 at 20:55  Deixe um Comentário  
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Enfrentou a noite enluarada | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 30 de junho de 1920

Querido Reini!

Primeiramente receba muitas lembranças de todos de casa. Recebi a tua carta escrita no dia 3 de junho no dia 23 de junho. Obrigada! Já há tempo esperávamos cartas suas, fazia mais de um mês que não tínhamos recebido noticias.

Você ainda não recebeu a carta que mandei no dia 30 de abril? No mesmo envelope seguiram as cartas dos estudantes [Lúcia e Artur], e isso realmente é um grande prejuízo. Mandei no dia 25 de maio a resposta à tua escrita em 6 de maio, e ainda em 18 de junho uma longa carta com muitas notícias dos últimos acontecimentos daqui.

Agora as cartas tem ido e vindo muito devagar, talvez seja porque está chovendo pouco e deve ter pouca água no mar, talvez esteja vazio. Hoje está chovendo um pouco; se vai aumentar o nível eu não sei, porque chuva de verdade faz tempo que não tem havido. Às vezes chuvisca um pouquinho só para fazer lama, mas aumentar o nível dos rios, isso não acontece faz tempo. Quem também reclama da falta de água é o tafoneiro, que não tem água para moer o milho por falta de água.

Geadas tem havido algumas fortes, lá para baixo perto de Orleans, que atingiram bananeiras, canas de açúcar e mesmo as capoeiras. Mas aqui em casa a geada não matou nada: só duas manhãs amanheceram com alguma geada nas baixadas. A semana passada e esta também está bastante quente, como se fosse verão. Vamos ver quanto tempo isto vai continuar.

Agora estamos colhendo milho e despejando no paiol.

Hoje é o último dia de aula para os estudantes. No mês que vem parece que não vai haver aula, pois ainda não se sabe quem vai ser o novo professor. O Butler no mês que vem vai para Curityba e agora está tomando todas as providências para a sua saída e a viagem. Está mandando arrumar todas as cercas porque quando chegar a Kate, que vai morar na casa dele, naturalmente não vai cuidar disso.

Este cuidado é para que o gado dele não fuja e vá estragar as plantações dos vizinhos. Os animais ele não pretende vender ainda, porque depois de um ano ele pretende voltar.

Agora a igreja de Rio Novo vai ficar novamente sem pastor. Quem virá para o lugar dele? Domingo atrasado o Onofre esteve em Rio Novo e apresentou uma proposta ao comitê de sucessão pastoral: que escrevessem para o missionário Deter dizendo que, uma vez que o Butler está indo para Curitiba, ele mandasse o pastor Manoel Verginio para morar em Laguna e dar atendimento a todas igrejas da região. O Comitê inicialmente aprovou de pronto essa ideia, mas para infelicidade de alguns. Aqueles da corrente contrária já começaram reclamar, pois a igreja naturalmente terá que colaborar com o seu sustento e outras despesas. Essa corrente começou a fazer barulho, mesmo sem ter chovido nada.

Durante a convenção alguns já tinham ouvido reclamações pelos cantos e beiras de estrada, mas agora esses começaram a gritar e reclamar, dizendo que quem concordou com os acordos e as novas normas que os cumpram. Dizem que o Butler quando traduzia [as conferências e deliberações] para a língua leta teria omitido partes, mas a realidade é que aqui tem gente que só entende o que interessa e aquilo com que concordam.

Quem maior barulho faz e mais reclama é o velho Karklin, que disse que se tudo não for traduzido para o leto ele e outras pessoas de idade não entenderam nada. Esse sabichão, que lê todos jornais do país e conhece de cor e salteado todas as leis, para nós foi longe demais.

Na sessão regular do domingo passado houve uma tentativa de homologação das resoluções havidas durante a convenção. Tinha chegado “O Baptista” de Curitiba com as atas e novos estatutos decididos nesta última convenção, e o comitê queria aproveitar ainda a estada do Butler para normatizar todos estes assuntos.

O primeiro assunto foi a “Grande Campanha”, cujo alvo é 22$500 por ano, que acharam demais. O Karklin concordou com o dízimo, pois quem ganha mais, mais terá que dar. Ele disse que os outros dão o dízimo, mas a igreja manda para qualquer Sociedade Missionária que ninguém conhece e nem dá satisfação. Ele estava bastante descontrolado. Disse que ele alguns anos dá mais que o dízimo, que é 10%; ele teria dado 14% e até 15%, e insistiu que sabia calcular muito bem.

O Butler reconduziu a ordem e explicou que o dinheiro não vai faltar desde que não se gaste com supérfluos e assemelhados. Se os rionovenses fizerem tudo o que é preciso, não haverá problema nem de falta de dinheiro. O [jornal] Baptista deverá vir de graça, mas é solicitada uma coleta para ajudar na sua divulgação, e se a coleta for muito pequena será enviada uma oferta do caixa da igreja.

Será também feita uma coleta para a Sociedade Missionária da Letônia e depois enviada para o Deter, que providenciará seu envio para o seu destino. Isto irritou ainda mais o Karklin, pois assim ele não foi reconhecido como grande defensor da pátria de nascimento. Ele não tem razão, porque daquelas coletas anteriores ninguém viu comprovante de que o dinheiro tenha chegado lá. Também aquela campanha para os refugiados de guerra, ninguém sabe onde o dinheiro ficou. O Karklin, em vez de mandar direto para a Letônia, mandou para França e eles de lá mandariam para a Letônia. Mas o caso é que, se realmente mandaram, foi para o governo da Letônia, assim os refugiados não viram a cor do dinheiro.

O Lamberts do “Drauga Balsis” ["A voz do amigo", jornal da denominação batista na Letônia] recomendava que todas doações para os necessitados fossem mandadas para as igrejas de lá, ou endereços pessoais de gente conhecida, senão o governo de lá fica com tudo.

Mas não foi desta vez que chegaram a acertar tudo, e parte ficou para outra vez.

Algumas damas que cantam no coro faz quase um mês que não puderam se apresentar no “palco”, pois estão com os tímpanos partidos; o Watsons tinha falado tão alto que parecia que estivesse falando para uma platéia de surdos, e também na orquestra os rapazes tinham tocado muito alto. Parece que elas não sabem dos inúmeros elogios que os componentes da orquestra receberam dos pastores por terem apresentado músicas maravilhosas de hinos usados na América do Norte e na Inglaterra.

Bem, quem ainda não estava com os tímpanos partidos deve ter ficado na noite do domingo passado quando, por ocasião daquele trabalho especial dos jovens, a orquestra tocou o hino 400 do Cantor: “Igreja, alerta”. Eles ouviram este hino pela primeira vez apresentado pelos mensageiros da Convenção e em seguida o Butler ensinou a cantar, e agora os rapazes da orquestra já tocaram com a maior vibração. Se o Deter estivesse aqui e tivesse ouvido, teria ficado muito satisfeito que o pessoal gostou da música que eles cantaram.

Há uma pequena parte da igreja que nada contra a corrente e diz que não vai quebrar a língua aos pedaços para cantar em brasileiro. Algumas dessas pessoas em outros tempos já tinham cantado em brasileiro, mas agora a roda girou para trás.

O Roberto [Klavin] conseguiu por sorte terminar o trabalho e voltar para casa para as conferências, e colaborou intensamente para o sucesso dos trabalhos. Agora ele está construindo uma fábrica de farinha de mandioca no Rio Larangeiras e o Arnoldo Karklim estava trabalhando para ele como ajudante, mas logo no início trabalhou com tanto entusiasmo que fez um corte no pé e com isso parece que bastou.

Por que o [Fritz] Jankowiski não voltou para o seminário este ano? Aqui, apesar de inquirido, ele não deu uma resposta clara. Já na primeira noite o Leimans quis saber por que e qual a razão pela qual ele não voltou a estudar este ano. Ele respondeu que este ano as circunstâncias não tinham sido favoráveis, mas que no próximo se as coisas mudarem ele irá de novo.

O que ele tem escrito para você sobre o Rio Novo, dizendo que encontrou tudo bem diferente do que imaginava, e que as pessoas que ele conhecia por nome e informações também não eram bem assim. O Karlis Ignausku, que tinha estado em Rio Novo, tinha contado que os Karklis eram pessoas muito enérgicas, mas ele não pôde observar essa
energia, embora o velho seja realmente um tipo enérgico.

Você poderia transcrever as impressões de viagem dele sobre o Rio Novo e o que ele viu de bom ou diferente. Esta semana o Arthur recebeu uma longa carta dele escrita no dia 5 de junho. Ele tinha conseguido chegar em casa no dia 4 de junho. Tinha saído daqui de Orleans no dia 26 e no dia 30 pegaram o “Max” de Laguna até Desterro [Florianópolis] e na segunda-feira a noite pegaram o “Anna” até Itajay. De lá o Looks foi a pé, beirando o mar até em casa.

Mas ele [Fritz Jankowiski] ainda queria conhecer Blumenau e então pegou um naviozinho até lá. De lá ele iria pegar uma carroça para ir até em casa, mas não deu certo encontrar as ditas carroças, então enfrentou a noite enluarada com a mala e bagagem nas costas, como se fosse um mascate, e depois de doze horas de marcha chegou a Rio Branco.

Parou primeiro na casa dos pais e da irmã, que encontrou quieta e vazia. Já na casa dele encontrou cheia de gente. Tinha chegado o Waltauris de seu Castelo da Felicidade que é Porto União. Aqui ele já tinha falado da possibilidade de quando ele voltasse este estivesse lá pela casa dele. O pai dele não estava em casa porque ficou doente no dia 31 de maio e viajou de trem para Rio Negro para se tratar com médico.

Os outros que saíram da Convenção ficaram retidos cinco dias em Imbituba esperando navio.

Bem, hoje chega. Vou esperar uma longa carta sua. Como se passaram os seus dias livres? Foi algum outro leto para a “Chautauqua”? Os, jornais, vais continuar nos mandar? Nós só recebemos um pacote e faz muito tempo. Este ano eles voltarão de mandar de cortesia o “Drauga Balss”?

Muitas lembranças de todos nós aqui.

Olga

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