Agora nos estamos passando suficientemente bem. | De Lucija Purim para Reinaldo Purim – 1927 -

Rodeio do Assucar 27 de julho

(Não esta grafado o ano, mas pelo contexto infere-se ser de 1927).

Querido irmãozinho!

A tua carta escrita em 19 de maio recebi. Muito obrigado. Agora o envio e recebimento de cartas não são como antigamente como quando você morava no Rio de Janeiro, pois naquele tempo as cartas iam e voltavam rápido, mas agora demoram até 3 meses ou mais e quando elas se desencontram ai a gente cansa de esperar por elas e às vezes passa o mês sem que a gente receba carta alguma.

Nós agora estamos passando suficientemente bem. Todos mais ou menos sãos, agora eu peguei uma tosse muito forte, mas não fui para a cama. Na semana passada sim o Paps foi para a cama, mas agora já está bom. No final do mês passado o Arturs ficou doente com a febre [Deve ser malária, pois esta doença era comum ainda quando eu era pequeno e morava lá.]. Ficou de cama algumas semanas e tanto que eu tive que ir a Orleans em busca de remédios para ele, então depois ele sarou, mas a febre está atacando a muitos por ai.

Agora o tempo está bom e está frio, já faz quase um mês que o tempo se mantém bom e muito frio e toda manhã amanhecia tudo branco. Agora tudo está morto queimado pelas geadas. O gado não tem nada verde para comer. Agora na semana passada ficou um pouco mais quente e no sábado a tarde veio uma chuva, mas no outro dia que o tempo amanheceu limpo e está geando outra vez. Estou um tanto cansada de tanto frio e gostaria que fosse um pouco mais quente, mas nem tudo que uma pessoa quer nem sempre acontece. Um inverno frio como este fazia muito tempo que não acontecia como está sendo este ano. Deverá haver a partir de agora um bom verão. Não deverá haver tantas lagartas e besouros que comem as plantações e assim podem se desenvolver melhor. Aqui os italianos dizem que se não há um inverno rigoroso, então no verão nada se desenvolve bem. Agora eu não concordo inteiramente porque no ano passado não tivemos um inverno frio e as plantações para nós foram ótimas.
O milho já está todo colhido e guardado nos paióis, portanto poderemos tranquilamente comemorar a Festa da Colheita. Este ano o milho desenvolveu-se muito bem e muito melhor que no ano passado, pois colhemos 35 carradas [Em um carro de boi cabiam x jacás ou balaios de milho tanto se fosse usada a seve que era uma cobertura lateral e também frontal fixa aos fueiros feita de taquara e cipó de um metro de altura fazendo com que o aproveitamento da mesa do carro de boi fosse totalmente otimizada para o transporte do mesmo ou se fosse usada a armação gradeada de madeira que tinha a mesma finalidade, mas em vez de ser uma peça flexível era composta de duas laterais com encaixes apropriados para duas tampas uma dianteira e outra traseira, mas também fixada nos mesmos fueiros.] e em todas as roças as espigas eram grandes quase não sobrando restolhos [Restolho era uma segunda espiga do colmo ou uma não bem desenvolvida usada naquele tempo para alimentação das vacas e isso era feito enquanto eram ordenhadas. Não eram dadas espigas grandes porque elas podiam engasgar e se afogar. Naquele tempo lá não existiam os desintegradores e quando não havia espigas pequenas as normais eram cortadas com facão ou machadinha. Como o milho era armazenado do modo que chegava da roça era feita catação na hora da necessidade e muitas vezes quando a noite no escuro devido a falta de luz a avaliação era feita baseada no tato] para alimentar as vacas.

No mês passado no dia 26 morreu o velho Auras, ele ficou doente vários meses. A doença dele começou com um resfriado e apesar dos familiares acharem que ele iria sobreviver e ficar bom, pois ele não era tão velho, pois tinha somente 56 anos de idade, mas agradou ao Senhor leva-lo para a sua nova habitação e a sua glória. Resta o desconsolo dos familiares e amigos.

O pastor Stroberg na semana passada esteve em Mãe Luzia acompanhado de músicos e cantores que foram dar apoio ao seu trabalho. Depois foram também à Laguna também fazer trabalho de evangelização. Voltaram para casa muito felizes porque o trabalho foi um sucesso. Em Laguna eles foram agraciados com a cessão do Teatro inteiramente grátis então houve um grande auditório de gente atenciosa e ainda solicitando para que fossem outras vezes. Também tiveram um grande apoio de uma distinta família presbiteriana que ajudou a providenciar o auditório e divulgar as atividades. Para o pastor Stroberg as portas estão abertas em toda parte e só ir trabalhar, mas como pode uma pessoa sozinha fazer tudo e ainda mais complicado devido as grandes distâncias e assim dificulta o acesso.

Na semana que vem é esperado o Missionário Deter aqui. Vamos ver se vem mesmo, pois algumas vezes têm prometido e não tem conseguido vir.
No dia 22 de junho viajou para o Rio de Janeiro o Alexandre Klavin acompanhado o Wiktor Staviarsky. O Alexandre vai para o Colégio aprender ser Professor.
——————————–
Então depois de passado um bom tempo que eu comecei escrever esta carta, já há mais de um mês então tenho que continuar. Na semana passada recebi a tua carta escrita no dia 24 de julho e por ela muito obrigado e fiquei feliz por que você respondeu rápido. Eu nunca tinha sido tão preguiçosa como agora, mas também não vou ficar me desculpando como faz a Lilija [Lilija Purens a prima de Nova Odessa] Tenho ouvido falar ai por outras pessoas que a Lilija ficou noiva de um Fulano de tal, mas para nós ninguém escreveu nada. Vou ter que escrever e perguntar se é assim mesmo.

A festa de aniversário da Igreja [O aniversário da Igreja era dia 20 de Março]foi muito boa, o programa bastante extenso. Chovia torrencialmente, mas o templo ficou repleto e quando tem café grátis com acompanhamentos então ainda mais fácil vir muita gente. Tinha 3 visitantes de Mãe Luzia e um de Kuritiba que é o pastor de lá o Djalma Cunha, Ele trabalhou muito no Norte do Brasil e estudou no Seminário Teológico de Recife e agora está em Kuritiba. Ele é bastante jovem e ativo tem 33 anos e a cor morena queimada pelo forte sol do Nordeste. Ele veio uma semana antes da Festa, sem ninguém estar esperando e foi embora uma semana depois. As lições que o Pastor Djalma Cunha ofereceu no Instituto Bíblico foram ótimas e valeu a pena mesmo, lamentável foi que coincidiu com a época das grandes enchentes, pois chovia sem parar e assim muitas pessoas não puderam vir. Também havia planos para fazer cultos de evangelização em Orleans e pelo mesmo motivo deu em nada. O Pastor Djalma prometeu voltar no mês de outubro por ocasião da Festa de Aniversário da União da Mocidade e também quer apresentar um Curso baseado no livro “Manual da Mocidade”.

Depois do Instituto no dia 22 de março houve o Casamento do Willis Slengmann com a Elvira Salmin Stroberg que era viúva. Então você pode imaginar todo povo marchando num imenso lamaçal para a casa dos Slengmann. Agora eles não moram lá dentro onde eles moravam antes e sim desceram para lá um pouco acima do passo do Rio Novo [Neste lugar onde os animais, carros de boi, arranhas e galeotas passavam por dentro d’água. Somente os pedestres e os cachorros passavam por uma pinguela. O meu pai que trazia mercadorias da Estação da Estrada de Ferro para a venda do Tio Eduardo Karp neste lugar muitas vezes teve que passar toda mercadoria nas costas devido o rio estar cheio demais].
Já no meu tempo quem morava ali era o Eugenio Elbert casado com a Alida Slengmann e continuavam com a atafona moendo milho, sal, etc. e também tinham uma trilhadeira onde nós levávamos trigo cortado para ser debulhado. [Ao redor da casa havia muitas árvores europeias como bétulas, plátanos etc.]. Ele mora agora onde o outro Slengmann tinha uma atafona junto ao Rio Novo onde que a gente sempre tem que atravessar.

Durante a Páscoa o tempo esteve bom e muito quente como fosse pleno verão, raramente houve calor assim, mas depois começou a chover outra vez. As Festas da Páscoa transcorreram calmas por que o Pastor tinha ido a Mãe Luzia e nós aqui ficamos sem o Pastor. Ele ainda foi a Laguna. Em Laguna o trabalho vai em frente apesar de com tanta rapidez não é possível fazer obras grandiosas. Se lá tivesse um obreiro fixo então teria muito mais oportunidades de que o trabalho fosse para frente rápido e não como hoje quando as viagens são quase esporádicas. O Pastor Stroberg tem muito trabalho então ele convide e convoca outras pessoas para o auxiliarem, mas as dificuldades são que muitos lugares são distantes e de difícil acesso. Na semana que vem o Pastor planeja ir, a Urubici, no outro lado das Serras. Ele quer visitar os Grikis e os velhos Bruvers. O mano Artur está planejando ir junto e vamos ver se vai mesmo.

Não me lembro se já escrevi sobre o casamento do Werner Grikis com a Elza Sanerip no dia 30 de setembro do ano passado.

A senhora Klavin da “mata [Mejza Klavene – Distingue a Senhora Klavin que morava no Rio Novo (Katy) da outra que morava lá no interior da Invernada –nas matas. Esta senhora era da família Malvess e antes fora casada com o Simpson que depois de viúva casou com o Klavin.] está muito doente e não sei se vai sobreviver, ela sempre foi um pouco doente, mas não tão gravemente com agora, pois agora sempre está de cama.

Junto com esta estou mandando uma fotografia de um piquenique no pasto do Augusto Felberg e a outra é do coro da Igreja do Rio Novo. Agora não está mais tão grande. Você ainda pode reconhecer alguém? Quem está sentada ao lado do Osvaldo Auras é a Lídia Stoberg irmã do pastor.
A terceira fotografia a pessoa [Deve ser do Eduardo Karp, naquela época, namorado dela.] que aparece se você não a conhece não tem importância ele também quer conhecer você melhor e manda muitas lembranças e votos de bem estar.

Se na América onde você está tem pêssegos e melancias deliciosas então mande as sementes para nós plantarmos aqui. Tudo o que for bom e barato pode mandar. Também cartões e outras publicações onde aparecem os lugares onde você está também pode mandar. Quando você vem para casa? Pelo que eu deduzi das suas últimas cartas você está pensando vir para este lado.
Bem desta vez chega de “imprimir”, pois já está uma longa carta e eu também não tenho mais papel. Aquela carta escrita para o Arthur foi recebida há muito tempo. Ainda lembranças de todos aqui. Agora fico aguardando longa carta sua. Lucia.

(Escrito na lateral)
O endereço do tio André é o seguinte:
Ratujza Iela N.17 – Jaunjelgava – Latvija.
_________________________________________

A Paz do Senhor seja convosco. | De Artur Purim para Reynaldo Purim – 1926 -

Rodeio do Assúcar18/11/26

Querido irmão Reinaldo!

A paz do Senhor seja Convosco.

As tuas cartas escritas no dia 17 de setembro e dia 5 de outubro foram recebidas, a última recebi no domingo passado e pelas quais agradeço muito. Foram longas cartas onde você descreveu sua grande viagem. Deve ter sido muito interessante mesmo esta viagem naquele imenso navio e todas aquelas cidades que você passou inclusive a loucura de uma imensa cidade como Nova York e ainda aquelas outras cidades da América, lotadas daqueles imensos arranha-céus, fábricas enormes etc. Você também poderia escrever quanto custou à passagem até lá e se com aqueles 1.500$00 mil reis previstos deu para chegar lá.

Nós agora graças ao bom e querido Deus estamos passando suficientemente bem. O tempo esteve semana está bastante quente e seco que faz tempo que não ocorria. Durante o inverno e a primavera chovia tanto que não tinha fim e também atrasou todos os serviços da lavoura e plantações que não puderam ser feitos na época apropriada.

Agora como de costume estamos com dois domicílios, o que não é muito confortável. Isto, por que com tão, pouca gente, cuidar de duas propriedades é demais. Camaradas [Trabalhadores rurais avulsos] também são inviáveis contratar devido ao alto custo 2 a 2$500,00 por dia e mais a comida é caro demais. Só a Maria trabalha para nós por mês, mas quanto isto adianta de tanto trabalho? Comparando com aquele tempo que você ainda morava ai quando nós todos íamos para o trabalho e ainda também mais o “Pintado” •• sempre junto, ai sim, rendia bastante o serviço e ainda assim, nos achávamos que não era demais. Mas agora contratar um quando precisávamos de três e quando nós próprios não estamos acompanhando o ritmo, não digo eu, mas o Paps que esteve doente há algumas semanas quando estava roçando uma capoeira furou o pé nalgum toco da roçada e daí a infecção tomou conta do pé inteiro transformando-se num furúnculo e ainda bem que já está melhor, mas ainda não pode fazer nada, pode ser que na semana que vem ele já possa ir para a roça, mas pouco ainda poderá fazer. Assim você pode avaliar como nós estamos indo.

Agora temos um visitante aqui pelo Rio Novo. É o Arthurs Leiman. Ele chegou no dia 15 de outubro. Da Argentina ele viajou direto para São Paulo e dali veio para cá. Durante a semana ele mora com o cunhado dele em Tubarão o João Ochs e aos fins de semana ele vem aqui para o Rio Novo.

Sobre aqueles negócios vou escrever muito pouco porque nada aconteceu. Apareceu um comprador para o terreno aqui, mas não deu nada. Tem outro que virá. Também a Bukovina não foi vendida e nem apareceu nenhum comprador. Também não saímos por oferecendo por que daí qualquer comprador vai querer oferecer uma ninharia. E sobre aquele preço sugerido eu tenho sérias dúvidas se será possível conseguir tanto. Agora tudo está tão barato, se fosse como no ano passado que tudo era caro quando um saco de feijão valia 80$000 e uma arroba de toucinho 40 mil então o povo tinha dinheiro para comprar terrenos. Mas este ano não é assim. Vamos ver como vai ser para frente. Sobre venda e compra de terrenos hoje é só isso.

Há pouco tempo atrás houve um incêndio em Orleans e queimou a Venda e a casa do Cardoso. Virou um monte de cinzas. O que parece e o povo comenta é que eles mesmos são os culpados. É que toda aquela propriedade esta assegurada dizem que por 80:000$000. Agora virou moda de todo mundo fazer seguro de suas vendas e casas. Alguns por 55:000$ outros por 73:000$000 e assim por adiante. O próprio Cardoso estava em Desterro internado no Hospital e a família estava morando em Imbituba. Naquela noite em que houve este sinistro havia na cidade uma grande festa, um tempo seco e um forte vento. Diante de tudo isso o povo ainda fala que eles mesmos foram os culpados.

Bem hoje chega, já escrevi esta longa carta. Poderia escrever até mais, mas o sono está apertando. Logo depois da ceia eu comecei a escrever porque durante o dia não há tempo. Você deve se conformar com o tanto que eu escrevi. Com lembranças minhas e de todos daqui. APurim.

(Página anexa escrita depois)
Você poderia verificar o preço quanto custaria uma bicicleta lá na América. Eu tinha escolhido uma da marca alemã “Vanderer” com freio de mão e de contrapé, campainha, dínamo com iluminação e marcha com duas velocidades. Em Laguna na loja da Karl Hoepcke custa entre 450:000$ a 600:000$000. Então faça o favor de perguntar o preço lá e verificar o tamanho, pois se for da marca Vanderer precisaria ser de No. 7. Se der negócio, nós vamos precisar de 2, uma para mim e outra para o Puischel do Auggi.

Sobre mais um assunto eu gostaria de escrever. É sobre o nosso Engenho de farinha de mandioca que está no terreno dos Leiman e o terreno onde está sendo vendido. O Salits diz que o engenho pode ficar lá quanto tempo quiser. Mas de que adianta ter uma fábrica de farinha e não ter a mandioca. E comprador nenhum até agora apareceu. Nós oferecemos para o Sahlit, mas ele não deu nenhuma esperança de comprar. E se algum comprador de fora terá que desmontar e levar embora então eu acho que não vai querer pagar nada. Existem partes que quando desmontadas elas não servem mais, outras como os esteios que são imensos e pesados serão muito difíceis de serem retirados. Existe o perigo de incêndio, pois ela, a fábrica, está na beira de capoeira cheia de samambaias. Por isso antes que se determine o destino dela seria bom chamar uma empresa de seguros para proteger de qualquer eventualidade. Então em caso de que alguém deixe entrar fogo o prejuízo não seria total. O perigo é que ela está bem na beira da capoeira e se ela estivesse dentro do pasto não haveria perigo algum. No ano passado um “maneca” [Termo pejorativo dado aos brasileiros nativos pelos descendentes de outras etnias] que mora perto da rocinha, resolveu queimar uma pequena coivara num domingo com clima muito seco e muito vento. Não deu outra, poucos momentos depois o capoeirão dos Slengmann estava uma linda fogueira. A sorte era que o vento não vinha em nossa direção.

Por isso a minha preocupação, pois pode acontecer em qualquer lugar. Hoje chega. Pois escrevi quase um livro. Escreva-me uma longa carta e comente sobre todos estes assuntos. Aqui fico teu amado irmão. Arthurs. [ Artur Purim]

_____________________________

…Durante o dia tenho que correr junto com os demais para as roças e….De Lucija Purim para Reynaldo Purim 1926

Rodeio do Assucar 18-11-26

Querido maninho! Saudações.

Enfim vou-te que escrever, pois o Arturs terminou de escrever a dele, se bem que eu não tenha nenhuma vontade de escrever ou mesmo pensar, pois durante o dia tenho que correr junto com os demais para as roças e na hora do almoço tenho que cozinhar a comida. Tenho que tirar o leite das vacas e ainda alimentar os porcos que estão no chiqueiro para engorda diante de toda esta luta quando chega à noite vem um sono tão forte que escrever cartas nem pensar. E ainda você foi para tão longe [Nesta época o Reinaldo já estava estudando em Louisville Estado de Kentucky nos Estados Unidos] e muito pouco interesse deve ter por nós aqui em casa e mesmo nem tempo para pensar em nós aqui não tem.

Nós aqui estamos passando suficientemente bem. A perna do Paps está ficando melhor. Durante 3 semanas ele não pode trabalhar, mas agora o furúnculo [Furúnculos ou abscessos eram bastante frequentes para as pessoas que moravam naquela região. Geralmente na maioria das vezes ocorriam nos pés, mas também podiam aparecer em qualquer parte do corpo. Por naquela época não haver nenhum tratamento específico eram tratados com emplastros mais variados. Quando terminava o ciclo rompia-se a pele saindo grande quantidade de pus amarelado culminando com a saída do “carnegão” que devia se o núcleo da infecção. Era vulgarmente chamado de “mijacão” e dizia-se que a infecção era transmitida através da urina de bovinos] rompeu-se e está ficando cada dia melhor e pelo menos agora nas noites ele consegue dormir.

A Festa do aniversário da União da Mocidade ocorreu com tempo muito bom apesar de um tanto frio [Esta Festa era no dia 16 de outubro]. Gente tinha bastante, vieram muitos visitantes de Mãe Luzia e Orleans. A direção do programa foi do Alex [Alexandre Klavin]

. Entre outros houve diversas saudações de outras Uniões e pessoalmente saudou esta o Artur [Arthur Leiman] em nome da congênere qual ele dirigia na Argentina. Ele tinha chegado na véspera em Orleans. A Festa continuou na noite de domingo, pois o programa era realmente muito extenso. Agora estão aprontando as partes para o Programa de Natal. Os pequenos estão decorando as poesias e assim que uma Festa se vai é hora de começar os preparativos para a próxima.

O Arthurs [Arthur Leiman] não vai mais voltar a morar na Argentina e sim vai continuar a morar no Brasil. Ele diz que lá ele não se saiu bem. Aqui ele não sabe onde vai estabelecer-se, mas para lá ele não vai voltar porquê a Associação de lá já autorizou ele voltar e também o salário era somente 150 pesos por mês e com isso era impossível sobreviver, se insistisse em continuar lá teria que morrer de fome. Num lugar onde tudo tem que ser comprado, pão, lenha, água em dinheiro a vista. O pão mais ordinário custa 50 centavos o kilo então eles compravam só deste e comiam e algumas vezes ficaram até deste sem comer por falta de dinheiro e por isso emagreceram tanto e também adoeceu. Agora logo que arranjar algum dinheiro vai terminar de aprender a profissão de dentista, pois ele já tinha praticado junto com o Fritz [Frederico Leiman] e agora só falta um documento emitido por um profissional atestando a capacidade técnica e os conhecimentos para exercer esta atividade.

O Arthurs quanto à oratória está muito mais fluente do que antigamente. Domingo ele falou na Igreja sobre Efésios 4 20 a 25. Deteve-se no versículo 20 e irritou algumas pessoas que já não gostavam dele. A maioria gostou bastante. Agora os Rio-novenses na maioria são como é descrito no versículo 25 que só é correto falar de uma pessoa na sua presença isso é na sua frente e não ficar malhando pelas costas com fazem alguns Slegmans e Matchs. Estes até os parentes como os Karp e os Stroberg eles conseguiram implantar inimizades porque queriam o Stroberg para a Mildinha [Amilda Karp], agora ele os causadores da polêmica também ficaram de mal com o Stroberg. Quando não foi possível, conseguir fazer o Karlites [Karlos Stroberg] namorar quem eles queriam porque manter então qualquer amizade se esta era a meta principal.

Desta vez chega, agora vou aguardar uma longa carta sua. Escreva sobre a sua escola, o que você come e quanto tempo vai ficar lá. A minha escrita está como a sua: pois nunca aprendi bem e o pouco que sabia já esqueci então nós somos iguais.

Muitas e amáveis lembranças da Lucija.
____________________________________

Eu passei 2 semanas de cama com dor de cabeça… De Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1926 -

Rio Novo 30/08/26

Querido Maninho!!
A tua carta escrita no dia 3 de agosto da Bahia recebi no dia 21 e por ela o meu muito obrigada.

Nós aqui estamos mais ou menos bem. Quase todos com saúde com algumas exceções, mas todos já conseguem trabalhar. Eu passei 2 semanas de cama com dor de cabeça de um jeito como nunca tinha acontecido. A dor começava na nuca e parecia que o cérebro girava dentro da cabeça. Após vários dias a dor desceu para as laterais das faces principalmente do lado esquerdo e ai realmente começou a grande dor. Doíam terrivelmente os olhos, nariz e os dentes e parecia que eu não conseguiria aguentar. Comecei a pensar que eu não iria levantar mais. Então a Mamma foi ao Zeeberg [O especialista em saúde] e ele mandou que aplicasse compressas escaldantes na cabeça e nos pés e assim fui ficando melhor. No início a Mamma achou que eu tinha sido atacada por alguma infecção no cérebro, mas acho que não foi pois agora estou bem melhor. Como bem e aprecio a comida, durmo bem e já posso trabalhar.Mas não gosto de vento frio. Logo sinto que o problema pode voltar. Eu preciso muito cuidar-me do vento. Acho que este mal foi trazido pelo vento. Aquela primeira vez nós estávamos plantando arroz então soprava um vento gelado e eu comecei a ficar congelada e logo depois começou uma prostração e cansaço e logo começou aquela dor de cabeça.

No dia 2 deste mês houve o casamento da Natalia Felberg com o Eduardo Karklim. O dia estava lindo. Pela manhã desceu a comitiva para Orleans para o casamento civil e depois a cerimônia na Igreja e em seguida todos foram para casa do Augge [Augusto Felberg - Era nosso vizinho] para o banquete. Todos foram convidados pois agora com a diminuição da colônia já é possível convidar todos para a festa. O velho Karklim foi visto gabando-se que devido à importância de ser o primeiro filho dele, tinha convidado a todos para a grande festa.

Logo estarão chegando às comemorações do aniversário da União da Mocidade. Agora estamos em plena atividade de ensaios. O café não sei se será servido, mas em compensação estão sendo ensaiados 10 Hinos fora os solos, quartetos etc.. São tantos que depois a gente não consegue lembrar de todos. A festa será dirigida pelo presidente Alexis [Alexandre Klavim] , mas para o próximo ano foi eleito o Augusto Klavim e foi dado um ano sabático para o merecido descanso, pois realmente ele tinha trabalhado muito então agora ele pediu uma folga porque não mais queria ficar.

Lembranças de todo pessoal de Larangeiras e principalmente do Romão Fernandes [Romão Fernandes foi meu avô materno] quanto eu contei que você iria embarcar para a América ele começou a chorar porque quem sabe nunca mais voltasse. Lembra das maravilhosas reuniões e cultos quando estavam todos juntos e você dirigia. E agora você foi para tão longe.

Como foi a viagem? Como foi que você apreciou as centenas de variedades de comidas a bordo? Qual foi a sua impressão deste novo mundo? Como é a tua escola? Você já providenciou óculos porque todos que vão estudar na América ganham e passam a usar óculos?

Escreva bastante sobre tudo para que sobre alguma informação para mim, pois não tenho tido nenhuma oportunidade para viajar para qualquer a algum lugar onde quisesse e nem sei se alguma vez terei chance de conhecer estes lugares…

Bem hoje chega de escrever, quando receber alguma carta então volta a escrever novamente.

Lembranças de todos.

Fico aguardando longa carta em resposta a esta. Lúcia.

Tradução da última carta escrita por Olga Purim para Reynaldo Purim – 1926 -

[Última carta escrita pela Olga numa data muito próxima ao seu falecimento]

Rio Novo 11 de junho de 1926
Querido Reini:
Saudações!!
A tua carta recebi na última sexta-feira e hoje já estou começando a escrever a resposta e talvez ache que seja rápido demais. Pela carta muito obrigada!
Se bem que esta carta realmente não me deixou satisfeita, mas você pouco vai se importar por que eu não gostei que você fosse embora para a América e a sensação que eu tenho que nunca mais vais voltar e eu nunca mais vou te ver por que lá e realmente muito distante.
Isto aconteceu um dia antes do recebimento das cartas. A Lúcia esteve com o Augusto Klavim pedindo que trouxesse a correspondência, pois nesta semana ninguém de nós foi à cidade. Naquela noite eu sonhei que tu tinhas chegado e trazido muitas coisas [“Mántinhas” Difícil tradução, pois “Mant” quer dizer riqueza, mercadoria, então como está no diminutivo poderia ser traduzido como” Coisinhas ricas”] lindas e disse que tão logo não iria embora. No sonho nós andávamos pelas roças lá perto da mata no alto do morro e eu ainda era forte e podia andar tão rápido como quando você ainda morava aqui e tudo era tão maravilhoso. De manhã quando acordei pensei e tinha certeza que o Augge iria trazer cartas suas e como realmente trouxe, mas com notícias todas ao contrário do que eu estava esperando, pois você quer ir para mais longe ainda. Eu e o Arthur tivemos combinando escrever para que agora que já os estudos estão terminados, você poderia tirar neste inverno umas férias mais prolongadas ou uma licença de 5 ou 6 meses para tornar a viver um pouco entre nós e é possível que os filhos do Leiman venham passar uns tempos entre nós. O Fritz escreveu que quer vender o terreno lá do Rodeio do Assucar. A Lúcia já te escreveu, mas parece que está foi extraviada. Se você tiver bastante dinheiro poderá vir aqui para comprar. Se o Arthur tivesse dinheiro ele compraria, pois ele gosta muito mais de lá do que aqui. Ele não pensa de estudar na América. Eu também gosto mais de lá, pois lá é bem melhor que aqui em Rio Novo, pois a topografia não é tão montanhosa, bastantes terras aráveis, a mandioca se desenvolve muito nos dois anos com raízes duas vezes maiores que aquelas aqui do Rio Novo e quando a farinha tem preço é muito mais fácil de fazer a farinha do que cultivar e colher feijão que é um trabalho muito mais penoso e também a mandioca pode ser usada para engorda de porcos economizando milho e assim não há tanta necessidade de plantar tanto milho. Eu de lá também gosto é do pasto. Nós agora necessitamos muito de pastagens, pois temos 20 animais entre bois e vacas e mais 8 cavalos entre os grandes e pequenos. Também lá não tem aquele maldito “matbaste” [“Matbaste” é a pronúncia e escrita incorreta de “Mata-pasto” a popular guanxuma] que infesta as pastagens aqui do Rio Novo. A renda proporcionada pelas vacas no verão é compensadora. O quilo da manteiga foi a 4 mil e se o Leiman vender o terreno para outros então nós também teremos vender as vacas por que aqui no Rio Novo não teríamos espaço no e qualidade da grama no pasto apesar do “matbaste” ter sido cortado com alfanje, mas a terra aqui é mais seca e então teremos plantar grama em outras áreas e capinar seguidamente senão o mato toma conta de tudo e a grama não sobrevive. O Arthur sugere que você venda o terreno da Bukuvina e compre lá o terreno dos Leimann. Lá não tem as tremendas grotas da Bukuvina que fizeram abalar inteiramente a minha saúde. Os Italianos correm como loucos atrás de terrenos com mata e capoeiras para comprar, mas não sei se algum deles vai levar.

A novidade é que nós logo vamos ter um vizinho novo, pois o Butler vai vender o terreno dele para o Attis [Otto Slengmann]. Ele tem terreno e mora no Rio Larangera, mas está muito deslocado em relação à comunidade leta. Então ele vai vender lá e comprar junto, pertinho da própria Igreja. Eu vou te escrever contando tudo depois dele mudar.

Agora eu vou ter que dar uma bronca. Você mesmo não poderia tirar um tempo, uma semana só para visitar os nossos parentes de São Paulo. O Paps faz tempo que pediu para pressionar você. Se nós tivéssemos condições então já há tempo alguém de nós teríamos ido visitá-los. Nós somos tão poucos e ainda por cima se eu não estivesse tão doente então a Lúcia teria ido. Mas para você é realmente muito mais fácil. Numa semana sem avisar ninguém chegar lá e ver como vivem por lá. Sempre achei que eles não estivessem passando muito bem e terem que trabalhar muito. E também a alimentação deve ser muito difícil. Nós aqui a carne, o leite e os adoçantes (Açúcar e mel) nunca a gente consegue gastar tudo, mas lá tudo é tão caro. O Willis Ochs quando mudou para lá levou banha e carne e quando estes terminaram ele gastou um dia inteiro a procura de banha e não encontrou. Depois conseguiu um quilo de toucinho e por ele teve que pagar 8$000. E como comer então?

Agora alguma coisa sobre a minha enfermidade. Quando escrevi outra vez, eu estava em Orleans tomando injeções. Mas não aquelas que você mandou, pois o farmacêutico disse que aquelas não serviriam e que ficaria pior, mas umas outras que ele receitou. Então comprei uma dúzia e ele aplicou, mas não adiantou nada e ainda fiquei pior. Então depois o Stroberg também precisou aplicar umas injeções e o malandro do farmacêutico também disse que aquelas trazidas por ele de Varpa não serviriam. Mas ele enfrentou com braço forte e sangue nas veias; então ele aceitou aplicar as injeções prescritas pelo pessoal de São Paulo e que serviram em outras ocasiões e agora foram válidas outra vez. O farmacêutico ficou envergonhado, depois da melhora do Stroberg.. Agora não tenho forças para ir, a Orleans e estou me tratando com água [Hidroterapia] e chás. Estive consultando o doutor que vem todas as semanas das Minas [Lauro Müller] para Orleans e ele falou que o meu mal é de água [Não sei o vem ser mal da água – Será Hidropisia?] e o sangue envenenado [Asinis sagifetas] e com a circulação em contrário. Queria que fosse lá para as Minas para retirar a água com uma bomba e morar lá no hospital onde receitaria a medicação e onde ele diariamente poderia acompanhar e senão fosse procurar um hospital em outro lugar, idéias que realmente não me agradaram. A Mama trouxe do Zeeberg um livro em alemão com ilustrações onde existem figuras associando o problema do coração com o mal da água, mas bem certo o meu problema não aparece descrito nos desenhos. Comer, eu gosto de comer, mas não todas coisas que antes eu gostava. Dormir antes eu dormia bem, mas agora quando eu deito começa uma tosse então o sono não vem. O peito e o esôfago [Pakrutis] estão inchados e sensíveis e quando tento andar rapidamente, fico exausta e dá uma grave falta de ar. Forças não tenho nenhuma, somente posso ficar sentada então somente consigo tricotar ou costurar e o mais difícil é que eu sinto um frio terrível. Principalmente nas mãos e nos pés que já estão doentes. Quando está frio os lábios ficam roxos e pelas manhãs os olhos e a face amanhecem inchados e às vezes a cabeça dói um pouco. Também não suo. Nem no pleno verão quando os outros estão completamente suados eu sinto calor, mas não suo. Também no tratamento quando tenho me envolver em um lençol quente e ficar inteiramente coberta o suor não aparece. Estou escrevendo isto tudo, pois poderás ter um conselho e poderias fazer o favor de escrever. Quando às vezes eu penso que antes eu podia andar e trabalhar parece um sonho distante e impossível que nunca aconteceu.
Bem agora chega de escrever. Você sempre escreve cartas curtas. Esta saiu uma longa carta.. A Lúcia já começou e é provável que já tenha terminado. O Arthur na vez passada escreveu, mas agora ele diz que não tem tempo para escrever, pois ele está comprometido com a fabricação da farinha de mandioca. Você escreve que lá está tudo caro e aqui está tudo muito barato. A Farinha a 5$000, o toucinho a 15$ – 16$000 a @, mas aquelas coisas que a gente tem que comprar nunca podem estar baratas.—
Agora vou esperar uma longa carta sua. Escreva quem vai pagar a tua passagem e quando vais viajar e se terás o dinheiro suficiente. Onde você vai guardar as tuas coisas ou vai levar tudo junto?
Aqui o tempo está frio, mas as grandes geadas ainda não chegaram, mas vai esfriar demais, pois, sopra um vento gelado.
No domingo passado houve o funeral do Reinold, criança de 6 meses filho do João Leepkaln..
Ainda muitas e amáveis lembranças da Olga.

…o relógio já bateu as 12 horas e eu preciso ir dormir. | De Luzija Purim para Reynaldo Purim – 1926 -

Rio Novo 5 de maio de 1926

Querido maninho!!

Saudações!

Envio para você muitas lembranças. Então hoje à noite eu tenho que escrever esta carta. A carta tua escrita no dia 16 de abril recebi no dia 30 e por ela muito obrigada, pois depois de uma longa espera enfim chegou. Hoje à noite quando fui a Igreja o Augusto Klavim me entregou em também para o Arthur uma pequena carta escrita no dia 24. Então veja você espera cartas nossas e nós, as suas. Então agora está confirmada que a minha carta escrita no dia 26 de fevereiro foi extraviada. Neste envelope seguiu uma fotografia nossa tirada por ocasião do ano Novo se bem que não ficou muito boa. O prejuízo maior foi à longa carta onde eu descrevi muitas coisas daqui e esperava que logo que ela chegasse lá. Então agora eu acho que eu, alguma coisa, vou ter que escrever outra vez. Acho que há um grande relaxamento nos correios e por isto que tantas cartas desaparecem. O nosso Agente dos Correios aqui em Orleans é muito bom para nós e para todos os letos daqui. Ele as nossas cartas ele não dá para os outros não autorizados a trazerem a correspondência para o Rio Novo. Pode ser que não seja perfeito, mas o problema acho que está nos correios de todo Brasil.

Nós aqui estamos mais ou menos bem de saúde. A Olga continua do mesmo jeito. Ela tomou aquelas injeções [“Eepoteeja” indica enxerto, vacina ou inoculação e não injeção, mas por falta melhores informações preferimos injeção] daqueles outros remédios, mas não melhorou nada e depois ela voltou ao médico e ele não mais dar aquelas injeções porque poderia até piorar e por isso deu outros remédios para tomar e disse que fosse para as “Minas” [Era como era chamada Lauro Müller, naquele tempo um distrito de Orleans] porque aquele médico que mora lá poderia acertar. Mas a Olga não quer aquele médico e levar a força não vale a pena. Porque prá ela é assim: se os remédios não fazem efeito logo de pronto estes, remédios não, servem ou não prestam. Agora a Mamma trouxe todos os livros de Medicina do Zeeberg [Karlos Seeberg era um prático na área da Medicina alternativa muito procurado na região que seguia o famoso monge alemão Kneipp, apóstolo da Hidroterapia e também usava Homeopatia e Fitoterapia] e ela vai procurar algo que sirva para ela.

Quando é que você vai para Ijui, pois aqui todas pessoas sabem através do “Kristiga Balss” [Kristiga Balss era um periódico batista leto editado na Letônia.], pois o Ukstin escreveu que já tinham convidado você para pastor e somente estavam aguardo o “sim”. Onde ficou o Kartinh? Será que já foi mandado embora? O teu colega, o Linkis, nada te conta sobre eles? Por que você não escreve nada sobre este assunto? As pessoas que estiveram lá e conhecem o pessoal de lá acham que você seria muito tolo de aceitar porque eles recebem muito bem, mas logo mandam embora e que muitas pessoas são mais difíceis que as daqui. Se por acaso fores para lá, poderás dar uma entrada até aqui no Rio Novo para descansar um bocado. É bem provável que ninguém vai tocar você embora somente avise quando você vai chegar senão a Lede poderá estralhaçar as tuas calças. O Arthur diz que você deveria vir aqui durante o Natal, pois também poderá estar aqui o Arthur Leimann para vender o terreno, pois o Fritzis escreveu que eles querem vender logo aquele terreno e pergunta se você não quer comprar. Assim você poderia ter mais terras.

As roças este ano estão mais ou menos bem. As plantas estão crescendo bem, somente o milho do tarde foi perdido com a seca. Mas conseguiremos sobreviver. Os porcos conseguimos engordar com o milho do ano passado. Agora começamos colher o milho da nova colheita. Cinco dos porcos muito gordos já vendemos conseguimos mais de 700 mil réis e ainda mais cinco prontos para serem vendidos. Também temos muitos outros para serem separados para engorda. Agora o preço do toucinho está baixando, estão pagando só 23$000 a @. A farinha de mandioca está valendo agora 8$ o saco, mas há pouco estava a 5$ e como sempre tudo que a gente tem para vender é barato e o que a gente tem para comprar está sempre caro.

Os nossos parentes têm escrito para você? Para nós faz tempo que não escrevem. Escrevemos duas cartas, mas não obtivemos respostas. Eles devem estar aborrecidos porque eles sempre insistiram para que fôssemos visitá-los e ninguém foi. Eu bem que queria ir, mas não deixaram. Você bem que poderia fazer uma visita, pois durante a semana você poderia ir e voltar em caso que não quiser passar o fim de semana lá.
Aqueles jornais e outros papéis eu recebi e por tudo muito obrigada. Aquele jornal poderia encadernar [“Costurar junto], mas falta o primeiro número. Este ano “O Crisol” não vai sair? Por que você não os tem mandado? Tens recebido o “Selhmallas Seedi” [Flores a beira do caminho]? Mande-os para mim.

Terei que terminar de escrever porque o relógio marca mais de 12 horas da noite e eu preciso ir dormir. Eu quase nunca consigo dormir cedo e ainda 3 noites por semana tenho que ir a Igreja aprender a cantar para as festas.
Se você também escrevesse cartas tão longas seria muito bom. Eu já mandei uma carta em abril. Esta já foi recebida?
O tempo agora está magnífico e bastante frio. Pode-se congelar quanto quiser, mas geadas ainda não tivemos e é possível que tão breve não as tenhamos. Venha no dia 16 de maio, eu vou fazer aniversário e vou fazer uma rosca especial [Kringelis – uma rosca especial feita como fosse com massa de pão, mas com muita manteiga e outros ingredientes. (ver a receita no capítulo “Pratos e comidas letas”] e você pode vir ajudar comê-la.

Ainda muitas e saudosas lembranças de todos de casa e vamos aguardar longa carta. Eu fico feliz quando você diz ir bem em seus trabalhos. Apesar de eu aqui nada possa te ajudar, mas peço a Deus em minhas orações todos os dias e mais do que isso nada posso fazer, mas o Senhor pode ajudar em qualquer lugar.

Desculpe por eu estar escrevendo tão rápido, mas certamente vais entender. – Lucija.

(Escrito a lápis no verso de uma das páginas)
Tinha esquecido de mencionar que na semana passada no dia 27 o Willis Slegmann viajou para ir servir o Exército. Foram juntos para despedida até Laguna o pai, a mãe e a noiva. Os demais letos não foram chamados ainda. Se algum será convocado, eu não sei. Existem informações circulando que mais reservistas serão convocados, mesmo os que estejam doentes ou que pagaram os 100$$. Alguns já foram embora daqui senão. [Sempre nestas convocações ou sorteios existia uma espécie de “terror” gerando boatos e insegurança nas famílias dos possíveis futuros reservistas]
Então agora estás recebendo uma longa carta e se me responderes pelo menos a metade desta será muito bom.
____________________________________

Já faz bastante tempo que não tenho recebido nenhuma carta…| De Reynaldo Purim para Lucia Purim – 1926 -

[ Trecho de um rascunho de carta datilografada do Tio Reynaldo para a tia Lúcia]

Rio de Janeiro, 16 de abril de 1926
Saudações.
Já faz bastante tempo que não tenho recebido nenhuma carta de casa. Espero todos os dias e não posso entender porque isso está acontecendo. A última carta sua foi escrita no dia 3 de fevereiro e eu recebi no dia 25 do mesmo mês e dai em diante está sendo uma espera sem fim. De boa vontade gostaria de saber o motivo desta longa interrupção. Não sei se as cartas que eu mando ou as que vocês mandam também não chegam.

Hoje está chovendo, portanto não posso sair, então por isso estou escrevendo esta mesmo sem ter recebido nada. Vocês receberam os remédios que eu enviei no dia 5 de março? Se não me escrevam para que eu possa procurar no Correio, pois, eu estou com o recibo em mãos. No dia 15 de março escrevi e mandei uma carta e no dia 25 um grande pacote de jornais. Vocês receberam? Os jornais foram registrados e se não receberam, vou perguntar o motivo no Correio.

Como estão todos em casa? Todos estão com saúde? Como vão os trabalhos na lavoura? O que este ano estão plantando? Como está o tempo por lá? Aqui tem sido quente e seco e nem parece o mês de abril. Ontem a noite começou a chover e ainda hoje está chovendo o dia inteiro. De modo geral não há nada de novo para ser escrito. A escola está novamente cheia de alunos grandes e pequenos. A grande maioria eu não os conheço. Também não tenho tempo para isso. Cada um vai para o seu lado e ninguém tem tempo para se interessar por outras pessoas.

A minha Igreja aqui vai relativamente bem. Recentemente tivemos reuniões evangelísticas, as quais foram dirigidas pelo ex padre Hyppolito de Olliveira Campos. Tinha muita gente. O Hippolito é uma pessoa de certa idade, mais de 70 anos ou talvez beirando os 80, mas ainda é um grande orador. Ele não poupa os católicos e suas atividades e para ele é muito fácil, pois durante 26 anos ele foi sacerdote católico. O povo gostou muito em ouvi-lo. Uma grande parte deste prometeu deixar o catolicismo e se converter. Agora estes são visitados e muitos assistem os trabalhos regularmente os trabalhos da Igreja. O trabalho é muito em visitar todos estes. Quase todos os dias eu tenho ido fazer estas visitas. Este é o meu trabalho e minha vida. Ainda dirigir os cultos aos domingo e as noites nos dias de semana, então o tempo passa sem a gente perceber.

Quanto a mim tudo está suficientemente bem. Estou com saúde ainda que às vezes muito cansado. Isto até é natural enfrentado tanto trabalho. Por isso eu não reclamo, pois tudo isso eu faço com alegria. Tenho oportunidade de encontrar as mais diversas pessoas, católicos, espíritas e até sabatistas. Ainda os chamados Estudantes da Bíblia ou Russelitas, cada um com os seus erros e um mais vil [No sentido de distorcer os ensinamentos da Bíblia ] que o outro, então você deve entender como é difícil, com cada qual se relacionar. [falta o final]

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.