Depoimento de J. A. Zanerip | Manas atminas no Rio Novas laiku dzivi

MEMÓRIAS DE MINHA VIDA EM RIO NOVO

Agora na nova vida em Rio Laranjeiras. Gostei muito da troca do Rio Mãe Luzia pelo Rio Laranjeiras. O rio Mãe Luzia era um rio largo e profundo. O rio Laranjeiras era raso e suas águas cristalinas e bem aquecidas, porque corria longos trechos entre pedras bem lavadas por grandes enchentes.

Agora há poucos anos viajei de Tubarão a Lauro Müller para subir aquela serra (Rio do Rastro). Ao passar por Orleans subimos até o lugar onde vivi na minha adolescência, isto é, nas margens do Rio Laranjeiras. Fiquei pasmado vendo o meu bem lembrado rio Laranjeiras, sempre cheio de muita água, agora virado num pequeno córrego! Isto talvez porque naqueles tempos chovia mais e as raízes da mata virgem retinham o escoamento rápido, conservando assim o rio sempre com bastante água.

No meu tempo esse rio era um paraíso da criançada. Era muito piscoso. Passei muitos dias pescando e me divertindo com os colegas. Será que este mundinho está secando mesmo?

A minha infância não foi nada fácil, pois já desde pequeno ia junto com a mamãe ajudar a limpar as roças; quando chegou o tempo de ir a escola as condições não permitiam ir. Minhas irmãs, sendo meninas, iam à escola, e à noite eu tinha que aprender — isto é, estudar as lições que as irmãs tinham aprendido na escola.

Mais tarde, quando fui à escola, meu primeiro professor foi o Sr. Treimanis, mas com a saída deste professor houve um longo período sem aulas.

As idas para a escola às vezes eram terríveis, principalmente no inverno. A estrada ficava branca de geada e a gente não tinha dinheiro para comprar sapatos, assim tinha que enfrentar a estrada com o pé no chão mesmo. Haviam ocasiões em que nem sapatos poderiam ser utilizados, com a grossa camada de lama que era formada pelas rodas dos carros de boi — principalmente quando chovia muito, — agravada pela passagem das tropas de burros e mulas que levavam mantimentos para os habitantes da serra. Essa conjunção de fatores tornava as precárias estradas intransitáveis.

Quem realmente poderia gostar dessa lamaceira eram os porcos que eram trazidos em manadas daquelas imensas distâncias, isto é mais de cinquenta quilômetros — de além das montanhas da serra, onde se situavam os grandes pinheirais e onde eram criados, tendo depois ainda a descida dos contrafortes da serra quase a pique. Hoje pode parecer inacreditável. Mas nós, que vimos com os próprios olhos, esperamos que aceitem essas coisas que hoje parecem totalmente improváveis ou impossíveis.

Tempos depois, agora já com uma irmã casada, um dia resolvemos fazer um mutirão para cortar cana de açúcar. Um futuro cunhado meu foi também. Voltando para casa o tempo fechou e começou a garoar, e a escuridão se tornou completa.

O Ernesto Karklis estava de namoro com a minha irmã Alvina, que tinha vindo a cavalo, mas para acompanhar o seu broto ele deu o cavalo para eu ir montado. Quando eu ia indo passando onde havia uma trilha por uma capoeira que naqueles dias tinha sido roçada e derrubada, e pela qual o cavalo estava acostumado a passar, o animal entrou derrubada adentro. Porém, como estava escuro demais e sem nenhum ponto de referência, fiquei sem saber como voltar. Resolvi esperar.

Quando ouvi vozes da turma conversando dei umas chicotadas no cavalo e voltei ao caminho. Apesar de não estar tão perto assim, a turma começou a gritar apavorada. Ao chegar a uma encruzilhada onde o Ernesto costumava se separar, fiquei esperando por eles. Quando a turma chegou, contaram que um bicho muito grande os tinha atacado, lá próximo ao toco da “maria mole” [NOTA: ombu, Phitolacca dioica, árvore chamada de "maria mole" por causa do tronco esponjoso e macio], e que tinham levado um tremendo susto. Logo imaginei quem deveria ter sido o bicho enorme: não poderia ser outro senão eu com o bandido do cavalo. Não contei nada com medo de apanhar, pois realmente não queria ter assustado ninguém.

Só bastante tempo depois, quando peguei uma vez carona no carro de boi do colega Adolfo Burmeister, e ao passar no famoso lugar dos bichos, no toco da “maria mole” com os seus lindos brotos, contei ao Adolfo que não acreditava nessa história de bichos e contei o que acontecera comigo e com aquele cavalo naquela noite.

O Adolfo começou a rir, não querendo acreditar e achando que era minha invenção, mas consegui convencê-lo de que era a pura verdade. Ai o Adolfo fez me prometer que não contaria nada a ninguém (e prometi) e contou-me outro fato sobre esse mesmo local.

Disse ele que uma vez tinha se atrasado na roça e já no crepúsculo da noite viu o Jacob Karklis vindo pelo caminho. Rapidamente ele, o Adolfo, saiu do caminho e entrou no meio da touceira de brotos do toco da “maria mole”. Quando o Jacob ia passando ele deu um ronco e saiu pulando abraçado aos brotos.

Pobre do Jacob! Jogou uma pedra que trazia na mão e correu como um doido, chegando em casa completamente exausto e contando que tinha acabado de escapar de um bicho terrível. Como conseqüência do susto adoeceu por um bom tempo.

Começou a circular o boato de que outras pessoas também tinham visto o bicho. Até um dia uma turma de italianos decidiu ajudar o pessoal na grande caçada ao lendário bicho. É claro que não acharam nada. Mas como esses caçadores podiam imaginar que esses bichos andam de carro de boi? Tudo mentira, fruto da fraqueza e do medo.

* * *

[continua...]

Origens da colônia: Breve história da Igreja Batista Leta do Rio Novo, última parte

continuação da segunda parte

Com preocupação também pelo bem-estar geral da comunidade, em relação à vida diária, foi organizada uma associação de moradores sob a orientação do pastor Inkis. Na realidade foram organizadas duas: o líder eleito para a associação do Rio Novo foi o J. Ochs, e para a do Rio Carlota o K. Seebergs. Como líder e dirigente das reuniões foi nomeado o F. Karps, e para secretário J. Frischembruder. Tudo foi feito com conhecimento e aquiescência do senhor Delegado de Policia de Orleans, Sr. Galdino Guedes.

A administração da associação de moradores tinha poderes para dirimir dúvidas e acertar pequenas desavenças entre os vizinhos — principalmente o que se relacionasse a cercas, porteiras, prejuízos causados pelo gado dos vizinhos em roças de outros, etc., — tendo inclusive autoridade para multar o culpado em Mlrs 5$000 (cinco mil réis), o que em moeda atual seria mais ou menos 20$000 réis. Precisamos anotar que essa multa nunca foi cobrada de ninguém.

A organização da associação de moradores aliviou o trabalho da igreja, pois toda e qualquer dúvida, queixa ou reclamação passou a ser tratada pelos responsáveis pela associação — pessoas vividas e com espírito cristão, que a partir desta postura tratavam todo e qualquer assunto. Nessas reuniões eram também discutidas novas idéias e o planejamento para melhorias na colônia.

A primeira e maior preocupação da comunidade era no sentido de se conseguir uma escola para a nova geração. Dirigiram-se então com uma petição à Empresa Colonizadora Grão-Pará, diretamente ao diretor Sr. Stawiarski, a fim conseguir um pedaço de terras para a comunidade — onde pudesse ser edificados a escola, o templo para a igreja e também o cemitério, — e terminaram conseguindo o terreno.

Em seguida a comunidade elegeu um comitê para a organização da escola, sendo Fritz Karps o dirigente e Juris Frischembruder secretário e tesoureiro. Os demais membros foram o compatriota e agrimensor J. Sarins, J. Ochs, M. Leepkalns, K. Matchs e K. Seebergs. Entusiasmados, os componentes da comunidade juntaram 411$000 réis para a viagem do futuro professor, que deveria vir da Letônia — mas que acabou demorando para vir.

Tendo em vista que a colônia de Rio Novo não tinha como crescer muito mais com a vinda de mais emigrantes da Letônia, já que todas as glebas das vizinhanças estavam tomadas, levando os letos que desejavam imigrar a procurar outras colônias (apesar de que nos vales vizinhos da colônia de Rio Novo ainda houvesse terras não desbravadas cobertas de matas virgens), o pastor Inkis organizou e também participou de expedições para busca e avaliação de novas áreas onde os letos pudessem ser assentados. Atravessaram o Rio Laranjeiras e o Rio Oratório, sobre cujas áreas não houve consenso quanto à viabilidade de aproveitamento. Na outra expedição, realizada nos fundos do Rio Carlota, nas proximidades da colônia italiana, foi encontrado um bom local, onde várias famílias letas se instalaram para morar, mantendo contato com Rio Novo.

Desenvolvendo o trabalho missionário, [o pastor Inkis] nos ensinava ainda hinos em língua alemã. Foram feitos vários cultos evangelísticos nesta língua, tanto em Rio Novo quanto em Orleans, resultando em conversões e filiação à igreja.

Foi também feita uma viagem festiva para a Colônia Leta de Mãe Luzia, que havia sido fundada na maioria por rionovenses. Desta viagem participaram mais ou menos vinte irmãos e irmãs dos coros, todos a cavalo, pois naquela época não havia outros recursos. A viagem durou dois dias e a noite foi passada ao relento, sob a luz das estrelas. Só noutro dia alcançou-se o objetivo da viagem, e também lá o trabalho missionário entre os alemães alcançou sucesso.

Quando a igreja de Rio Novo já se havia revigorado espiritualmente e o pequeno grupo que anteriormente se afastara já havia voltado, tendo sido recebido amorosamente pela igreja, pareceu ter chegado a hora de eleger biblicamente os seus servidores. Aos eleitos para o cargo de diáconos o pastor apresentou uma santa exortação:

– Agora vocês — disse ele — terão de se aproximar mais vezes da porta dos céus, em oração não só por vocês mesmos, mas pela igreja e pelas missões.

E com a imposição das mãos e com oração, num ambiente de reverência marcante, encaminhou-nos para o trabalho da igreja — o que me lembro como fosse agora.

Os sete servidores eleitos e ordenados pela igreja foram os irmãos Fritz Karps, Wilis Slengmanis, Jahnis Klawins, Evalds Feldbergs, Karlis Sebergs, Juris Frischembruders e Karlis Macths.

Os trabalhos da Igreja se desenvolviam muito bem, pois cada domingo que passava a igreja se revigorava e havia sinceros cultos de louvor e adoração. No aniversário de fundação da igreja (20/03) havia festas que duravam vários dias, seguidos com ricos e variados programas. Cantavam diversos coros, de senhoras, de visitantes; chegou-se a ter seis coros participantes.

A igreja, como reconhecimento e gratidão a seus obreiros, presenteou a todos eles com o desejado livro “A terra onde Jesus andara”. O pastos Inkis disse:

– Hoje não comemoramos o Natal, mas mesmo assim vamos distribuir presentes.

Os que receberam as lembranças foram o moderador da Igreja, irmão Fritz Karps; o dirigente do coro do Rio Novo, irmão Juris Frischembruder, que havia recentemente aposentado sua batuta; Karlis Matchs, que também tinha trabalhado como dirigente do coro do Rio Carlota (este era o mais idoso e por isso ganhou um Novo Testamento impresso em letras de tamanho grande); também foram lembrados os novos dirigentes dos coros, Wilis Leeknins e Gustavs Grikis, como estímulo para um diligente trabalho. A organização desta distribuição de lembranças com o intuito de reconhecimento foi organizada sigilosamente e desenrolou-se maravilhosamente, causando uma impressão inesquecível.

Na nossa memória estão guardadas muitas outras maravilhosas recordações, mas quando estamos a escrever devemos guardar limites.

Chegava o mês de abril de 1898; na Europa era início da primavera e aqui outono, época das colheitas. Faz agora quase um ano que o evangelista de Riga trabalha em nosso meio, e os nossos corações curtem os frutos de reconhecimento.

Em segredo absoluto a igreja organizou a festa dos balanços [?] no 14 de abril, que ainda estava em vigor segundo o antigo calendário da velha pátria (quarta-feira da semana santa). Ao redor da residência, junto à casa da família Grauzis onde [o pastor Inkis] se hospedava, foram se chegando na escuridão noturna, em passos silenciosos, grande parte dos habitantes da colônia.

Uma profunda paz noturna cobre toda paisagem. De repente luzes são acesas e um potente coral masculino irrompe com o hino: “Jeová, Jeová”, vibrando frente à porta da casa e ecoando pelo vale afora. Ao mesmo tempo mãos ágeis prendem e penduram arranjos florais e palmas nas portas e ao redor da residência do homenageado. Após este cântico ainda canta um coro misto. Então sai da sala aquele que foi acordado. Cumprimentos. Os cantores e os dirigentes da igreja entram na sala, enquanto os outros participantes silenciosamente se retiram para as suas casa para continuar o repouso. Na sala persiste um silêncio e uma expectativa, como que um estivesse esperando pelo outro ou que viria depois. O pastor Inkis tenta quebrar o silêncio contando um fato que acontecera em um culto “quaker” no qual reinava um silêncio como o daquele momento. Chegados e assentados aguardavam que surgisse uma palavra, mas ninguém parecia inspirado. Longo e interminável silêncio.

Então uma menina levanta-se, e na sua voz infantil teria dito:

– Pois eu acho que nós todos devíamos mais e mais amar o Senhor Jesus.

Foi como se tivessem sido abertas as comportas. Para muitos surgiram motivos para testemunhar do amor de Jesus, e também começou a desenrolar-se o nosso novelo com conversas e hinos. É aniversário, então também há presentes. F. Karps entrega ao obreiro, como presente, uma quantia em dinheiro. Após examinar ele diz:

– Realmente é um presente pesado.

Em seguida recebeu presentes de outras pessoas, depois mais hinos e palavras amáveis. Entre outras coisas, diz o pastor Inkis:

– Pois quando fui dormir ontem (era madrugada), estava sem sono e notei como os cães da colônia latiam mais do que em outras ocasiões. Agora entendo porque. Completei os 26 anos de idade e estou entrando para os 27, e o ano que tenho passado em Rio Novo posso contar entre os mais felizes da minha vida.

Já estava clareando o dia quando nos retiramos, os corações cheios de alegria.

Um belo dia o Sr. Staviarski, diretor da Empresa Colonizadora, enquanto atravessava a colônia de Rio Novo, parou em casa de colonos letos para descansar e tomar um café. Foi ali surpreendido por um grupo de crianças da colônia, orientadas pelo pastor Inkis, que o saudaram com um pequeno hino, “De todo nosso coração, nós saudamos tão caro hóspede, nossos olhos brilham, nossa alegria é real”, e em seguida “Ajuda-nos a cuidar dos pequenos.” Em seguida uma menina lhe entregou um livro de encadernação dourada — “A Terra em que Jesus andara”, em língua alemã, que ele conhecia perfeitamente. Seguiu-se a petição das crianças: que o senhor diretor tomasse as providências para doação de uma gleba de terra no meio da Colônia para que fosse possível ser construída uma escola para elas…

Durante este período houve diversos batismos, que foram festas de muita alegria tanto aqui na terra como no céu. O período de trabalho do pastor Inkis foi um santo tempo, pleno de alegria e crescimento espiritual. Não faltaram momentos de alegria e de descontração, mas também os de firmeza e determinação. Sempre ao lado da verdade e da justiça, ajudava os doentes com conselhos médicos e medicamentos, e sempre compartilhava com os sentimentos tantos os alegres como os de tristeza. Provocava um clima de boa vontade geral; por exemplo, a família Ochs veio ao encontro da necessidade da igreja hospedando o pastor por 6 meses e, em seguida, mais outros 6 meses foram passados na casa dos Grauzis nas mesmas condições.

Depois ter passado um ano em Rio Novo o pastor Inkis tomou o rumo do Rio Grande do Sul, a fim de visitar a colônia leta de Ijuí. No dia da despedida houve uma grande festa na casa dos Ochs, um verdadeiro banquete. O desenvolvimento espiritual, cultural e mesmo financeiro da colônia estava em seus e nossos futuros planos. Em vão ainda tentamos alcançar, mas foi inútil. Não haverá mais…

Depois que o pastor Inkis voltou a Riga nos visitaram em Rio Novo os irmãos missionários americanos do Rio de Janeiro, W.B. Bagby e o Dr. Donan, ambos pioneiros do trabalho batista naquela cidade [Nota de J. Inkis: De minha parte devo informar que as notícias sobre os batistas letos de Rio Novo e sua localização foram cedidos por mim a esses missionários americanos. Quando da minha volta para a Europa fiquei retido uma semana no Rio de Janeiro, capital da República. Ali consegui encontrar uma igreja batista, que em 1899 era ainda a única em toda cidade, e onde também encontrei o missionário que desta pequena igreja era o fundador e pastor. Como vimos, este não planejado atraso proporcionou um encontro que foi fundamental para despertar no missionário o desejo conhecer a igreja do Rio Novo].

O missionário Bagby pregava e cantava sinceramente e poderosamente. Donan falava mais devagar mas, como de profissão era médico, ajudava os doentes e necessitados. Ambos gostaram muito da colônia e adjacências e disseram que o pastor Inkis deveria voltar a este lugar e trabalhar no evangelismo [Nota de J. Inkis: Esta palavra amiga dos missionários se cumpre como profecia 20 anos depois em outra localidade e em outras circunstâncias. Não foi muita vantagem para a igreja de Rio Novo, a não ser o desenvolvimento da literatura evangélica em língua leta, agora mais abundante e de fácil aquisição por ser produzida aqui mesmo no país (Varpa, SP)].

Como inesperado hóspede numa manhã de domingo visitou a igreja de Rio Novo o pastor luterano e nos apresentou em língua alemã um sermão sobre o homem rico e o pobre Lázaro.

F I M

Juris Frischembruders

Texto de Juris Frischembruders com prefácio de Janis Inkis. Publicado na Revista “Kristigs Draugs” (O Amigo Cristão) números 09, 10 e 11 nos meses de setembro, outubro e novembro de 1940.

Leia também:
1. Breve História da Igreja Batista Leta do Rio Novo, primeira parte
2. Breve História da Igreja Batista Leta do Rio Novo, segunda parte

O filho do italiano que comprou a terra do Limor | Olga Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 14 de agosto de 1919

Querido Reinold!!

Primeiramente receba muitas lembranças de todos de casa. Na semana passada recebemos as cartas do Arthur e da Luzija; se bem que não eram resposta a nenhuma carta, mesmo assim vou escrever para você.

Nós estamos passando suficiente bem. O tempo está fresco e bom, este ano não houve geadas por aqui. Só algumas pequenas nas baixadas. Este ano é bem provável que não haja mais geadas, pois está tudo verde, tudo florescendo, as laranjeiras brotando e todas as plantas cheias de abelhas que vão e vem com o zunido alegre e contínuo de uma primavera que chegou…

Tem muita gente derrubando capoeiras e matas para fazer coivaras onde serão feitas as novas plantações. Nós ainda temos milho para colher, e deverão ser gastos uns dois ou três dias neste serviço. O milho não deu muito bom, devido à seca quando estavam florescendo e depois as ventanias e temporais que derrubaram muito; mesmo as abóboras na Bukovina deram menos que nos outros anos. Todos falam que o milho deste ano não foi muito bom.

O açúcar nós já fizemos, como já escrevi na outra carta, e agora é época de plantar cana outra vez. Então trabalho é que não falta, pois o tempo das plantações chegou.

Você tem os seus trabalhos, mas não são os mesmos que os nossos. Onde vocês guardam a lenha que racham? Quem é o teu companheiro na serra para topiar a lenha? E o Fritz Janausks, tem alguma tarefa ou ele tem dinheiro suficiente para pagar a escola e não ter que trabalhar?

Os mensageiros que foram à Convenção, há 1 mês e ½, ainda não voltaram. Acho que eles estão aproveitando bem a oportunidade; uma vez que saíram, então por que não? Mas faz duas semanas que são esperados por aqui. Os navios não têm nenhuma regularidade, mas as vezes chegam e partem antes do dia marcado. Hoje está sendo esperada a mala postal e quem sabe também cheguem os viajantes. Eles foram, além de Kuritiba, também para Blumenau, então o Robert [Klavin] vai ter o que contar o ano inteiro. Pois esteve em lugares em que nunca tinha estado nem conhecido.

Desta vez não tenho quase nada de novo para escrever. É possível que eu logo receba resposta às minhas duas cartas, uma que mandei no dia 14 de junho e outra no dia 1 de agosto. Acho que você já as tenha lido.

Esta semana o filho do italiano que comprou a terra do Limor foi morar na choupana do Anton Netemberg, nos fundos da colônia deles. O Diretor da Empresa [de Colonização] começou dar uns apertos no Nepis [Netemberg], então toda aquele papo e grandeza foram água abaixo.

O Nepis tinha ido ao Diretor pedindo que ele desse uma autorização para que ele pudesse vender a propriedade, pois ele quer mudar para a serra, onde o trigo cresce maravilhoso e as vacas tem úberes nas costas e para tirar leite não se faz necessário se abaixar. Mas já tinha avisado que não ia dar leite para beber para todos. Somente para quem ele quisesse.

O Diretor não foi na conversa dele e avisou que uma vez quitada ele terá a liberação para vender para quem ele quiser. Mas como ele já tinha vendido a metade dos fundos, ele tem que se virar em 150$000, se não o italiano vai tomar tudo.

O Antônio e a Helena já estão morando junto dos velhos. O Jepis, um menino ladino, foi a cavalo até Mãe Luzia para se candidatar a genro do Akledames, pois ele queria a Lina, que tinha muita terra e muitas vacas, mas nada deu certo. Aí ele voltou para casa e recebeu novos conselhos do velho Gedus, para voltar a Mãe Luzia e fazer a mesma manobra com os Andermann, pois além da Pauline o velho tem muito dinheiro, e ele ficaria sensibilizado por um jovem de fora — mas lá recebeu também um “balaio” e todos os planos foram para o espaço.

Bem, por hoje chega. Noutra vez mais.

Com muitas e amáveis lembranças,

Olga

Published in: on 1919/08/14 at 13:31  Deixe um Comentário  
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Os rapazes que deixam escapar alguma palavra em brasileiro | Olga a Purim a Reynaldo Purim

Rio Novo, 8 de junho de 1919

Querido Reinold!

Saúde! Hoje é a festa de Pentecostes [NOTA: Em leto "festa do verão", a tradição lembrando ainda o hemisfério norte]. Está bastante quente, como fosse verão mesmo. Está um pouco nublado mas não vai chover.

As estradas estão todas ainda lamacentas das chuvas da semana passada, pois não foi pouca coisa não. Geada nenhuma até agora. Em outros anos nesta época não tinha mais nada verde.

Nós graças a Deus estamos todos bem e todos com saúde.

Na semana passada, dia 3 de junho, recebi a tua carta escrita no dia 22-5-19. Por ela muito obrigado. Estou muito alegre que todas as minhas cartas você recebeu regularmente. E do mesmo modo, as tuas cartas e os jornais estamos recebendo em perfeita ordem. Na semana passada, dia 7-6-19, mandei um pacote que pesou 1 quilo, contendo meias e as cartas de Luzija e Artur. É possível que as tenhas recebido e assim sabes que o período de festas aqui terminou.

O Deter esteve em Rio Novo e já foi embora. Aquelas três semanas, duas aqui e uma em Mãe Luzia, passaram muito rapidamente. Ele agora possivelmente esteja em Blumenau. Ele não aprova o exagero dos letos de Blumenau em relação aos Espíritos, [doutrina com] que eles estão totalmente envolvidos. Semanas atrás estiveram aqui o Anderman e o Strauss. Você se lembra do Augusto Strauss. O irmão dele está totalmente envolvido com esse movimento. Pois eles estiveram aqui uns dias, mas foram embora para Mãe Luzia. Aqui a “igreja” deles não vingou, pois os únicos que davam algum apoio que eram o velho Grikis e o Limors, e eles não se dão entre si.

Sobre as Festas não tenho muito o que contar. De Pedras Grandes veio uma irmã do Onofre Regis e a filha Rosa com o marido dela, e mais uma mulher que eu não conhecia. Eles ficaram hospedadas na casa do Willis Oschs, o qual providenciou cavalos para ir buscar estes visitantes e depois levou-os novamente até Orleans.

Quando o Deter estava aqui o Onofre, José e mais um parente deles esteve nos Klavin. Você pergunta se nossa Escola Dominical vai mandar representantes para a Conferência em Paranaguá. Já escrevi na carta passada que a Escola Dominical na casa dos Leimann foi interrompida com a reunificação das igrejas. Se alguém desse o dinheiro ou se eu tivesse de sobra eu bem que gostaria de ir, pois nunca fui a um evento destes.

Eu mostrei o anúncio da Convenção no Jornal para o Roberto [Klavin]. Ele não tinha visto, parece que ele não é muito chegado a leitura de jornais. Sugeri que ele partisse antes e fosse adiante visitar você. Ele vai embarcar em julho para Paranaguá e parece que não tem vontade ou coragem de ir adiante. O Deter prometeu voltar para o Rio Novo no Natal e voltar mais vezes visitar o Estado de Santa Catharina.

E você não vai vir para casa no Natal? Esta faltando meio ano, mas este passará muito rápido, pois o começo do ano parece que foi agora e já estamos no meio do ano. Quem sabe você já não saberá falar mais em leto e só em brasileiro, que segundo o Grünfeldt é língua de negros. Ele fica patrulhando os rapazes que às vezes deixam escapar alguma palavra em brasileiro.

Eu tive a chance de escutar duas pessoas falar em inglês pela primeira vez na vida. Eram o Deter e o Butler, que quando os dois estão sós falam somente em Inglês.

Eu fiquei mais duas semanas em Orleans na casa dos Stekert, mesmo sem aulas de costura, porque eles tinham um monte de problemas, como vender as vacas e os cavalos, que ainda estão à venda. Os porcos foram levados com o milho a Orleans, onde vão ser engordados.

No Rio Novo ninguém [da família Stekert] vai ficar morando. No próximo mês a propriedade vai ser arrendada a um italiano.

Os Pintados foram embora para o meu luga [em português no original] e a história não ficou bem contada. Eles fizeram dívidas com todos e até para nós ficaram devendo 2$700 — e muito mais para os outros. Eles foram embora de noite. Outros dizem que podem ser eles que tenham matado o Stekert, pois nos últimos tempos eles tinham raiva um do outro e o Jurgim deixou escapar que o genro dele era um verdadeiro bandido (?).

O dinheiro do Stekert até agora não foi encontrado e todo mundo sabe que devia existir.

Bem, por hoje chega. Outro dia novamente.

Lembranças do Papus, da Mamma e da

Olga

A Nova Sciencia de Curar | Roberto Klavin a Reynaldo Purim

Invernada, 6-5-19

Querido amigo!

Recebi a tua carta escrita no dia 1-4-19 no começo da semana passada, mas como não tinha nenhuma ida programada a Orleans a resposta atrasou. Você menciona que escreveu mais cartas, mas estas devem estar perdidas. Esta última estava com o envelope rasgado e precariamente colado, indicação clara de que há ladrões no sistema de correios.

Hoje até que enfim chegou o tão esperado A. B. Deter. Tinha avisado com telegrama mandado de Paranaguá, então amanhã a noite ele deve chegar ao Rio Novo. Ele vai ficar pouco tempo, mas deverá visitar a Igreja de Mãe Luzia. Quanto ao que acontecer, eu no momento não poderei escrever antes de voltar para casa. Estou trabalhando fora para um tafoneiro (melders) fazendo uma nova engrenagem para o moinho dele, e tratei também com um italiano para construir um novo engenho de farinha de mandioca, que logo terei que começar. Mais outro já me procurou para outro serviço que às vezes tenho de dispensar, pois em casa também temos muito serviço.

[NOTA de V. A. Purim: Roberto Klavim era um grande construtor de atafonas, serrarias e engenhos de farinha de mandioca; sempre tinha junto de si aprendizes, principalmente italianos.]

No começo do ano nossa igreja teve problemas e desavenças devido a coisas antigas que o Match vinha querendo levantar; o resultado foi que ele afastou-se da igreja, e agora as coisas se acalmaram. Ele sempre queria que as coisas acontecessem do jeito que ele pensava e como a maioria não foi na dele, ele se afastou. A Escola Dominical no Rodeio [do Assucar] durante o mês de janeiro parou devido à Milda, que pediu demissão, mas logo em seguida a igreja elegeu a Emma para professora e agora vai tudo bem em frente.

A Escola Dominical no Rio Larangeiras te envia muitas lembranças. A mulher do Caciano está muito adoentada e com a fisionomia decaída, e a Maria também está muito pálida. Muito ao contrário, a Margarida está vermelha como uma beterraba e continua aprendendo a ler e escrever.

Bem, quanto à saúde não há muito o que se queixar e ainda agora eu tenho dois livros sobre saúde em brasileiro. Um é “A Nova Sciencia de Curar”, que ganhei de presente do Dr. W. Butler, e ensina a curar as doenças. O outro encomendei de uma livraria de São Paulo; este ensina reconhecer as doenças pela fisionomia, pelo corpo e pelo rosto da pessoa. Com base nestas informações constatei que tenho problemas no fígado, mas eu vou curar com água [hidroterapia].

Obrigado pelas lembranças do F. Janaujakas: retribuas para mim.

Às vezes quando penso em estudar mergulho em profundas reflexões, mas chego à conclusão de que nas condições em que me encontro não teria a mínima possibilidade de superar e chegar ao ponto em que já estás. De qualquer modo acho que o alvo que buscas é nobre, que é trabalhar na causa de Deus. Mas quanto a mim, acho que não fui escolhido para este ministério.

O Arnolds [Klavin] está muito bem lá nas serras, e está bem mais gordo do que quando morava aqui em baixo. O Juris está lutando com a sua estimada cultura de algodão [em São Paulo]. Acho que a esta altura já deve tê-la colhido, mas não temos notícias dele.

Finalizando, receba muitas lembranças nossas e também minhas, e que Deus te ajude.

Roberto [Klavin]

Viagem a Tubarão | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripto em letto
[observação em português no original]

Rio Novo, 24 de outubro de 1918

Querido Reinold,

Recebi a tua carta, escrita no dia 3 de outubro em brasileiro em nome de E. Leimann, no dia 18 de outubro. Agradeço. Eu devia responder mais rápido, mas o tempo chuvoso e as estradas lamacentas não permitiram. Devido a isso a matança dos porcos gordos [também] não foi possível; como poderíamos transportar os mesmos para vender? Por isso não respondi, já que ninguém iria levá-la ao correio.

As tuas cartas também estão demorando. Recebemos os jornais e uma pequena cartinha e mais o Bolletin cor de rosa. A carta do Watson também foi recebida. E quanto à convocação e os regulamentos militares, não gostamos nada, principalmente quando [soubemos que] você poderá ser chamado. Aqui sobre estas coisas pouco se fala.

Quanto ao nosso bem-estar, graças a Deus estamos muito bem. Serviço é que temos bastante: temos que capinar e plantar, e quando a gente termina num lado, o mato já está nascendo do outro.

Agora faz um mês que está quente, chuvoso e úmido que até parece janeiro ou fevereiro. São chuvas de trovoadas, mas temos medo que venha algum período de seca. Milho já plantamos cinco quartas, perto da roça da ponte; na roça atrás do mato plantamos arroz, mandioca, aipim grande, batata inglesa e amendoim.

Quanto às coivaras, ninguém consegue “fumegar”, pois estão ficando verdes e bonitas outra vez e quase não se distingue o que é uma coivara de mato por aí. Este ano tivemos visitas da Argentina [gafanhotos]; aqui em nosso terreno poucos tem aparecido, mas lá nos Klavin e nos Leimann passaram imensas nuvens. Por sorte não desceram, foram pousar bem longe na terra dos italianos, onde estão pondo ovos.

Aproveitando, enquanto me lembro, o Arthur Leimann manda muitas lembranças para você e para os seus colegas.

Agora vou escrever alguma coisa de novo: nossa viagem a Tubarão.

Tu tens viajado de trem muitas vezes, agora eu, desta vez foi a primeira — mas “quem toma gosto por viagens voltará a viajar”. Aqui o governo ofereceu passagem para as pessoas que quisessem votar para intendente; teriam que ir a Tubarão preparar uns papéis [de qualificação eleitoral], pois naquela primeira eleição não deu nada e por isso estavam procurando novos eleitores — dando passagem gratuita, refeições, pagamento do hotel, e tudo faziam para que fossem até lá. Mas havia uma condição: só podia votar quem tinha propriedade. Então Papai foi e aproveitei para ir junto, mas não comece a pensar que fui para votar também.

Nós pensávamos de aproveitar a viagem para lá comprar alguma coisa mais barato, mas não encontramos nada mais barato que em Orleans. Para não dizer que nada era mais barato, tinha o café, que em Orleans era 2$000 o quilo e lá era 1$500.

Nossa viagem foi no dia 26 de setembro. Fomos a pé na véspera até Orleans; eu pernoitei na casa dos Stekert e Papai foi para a casa do João Feldmann. Naquela viagem éramos seis letos: os Leimanns, o Arnoldo Klavin e o Willis Elbert. Pela manhã o tempo estava magnífico, mas mais tarde começou a ficar nublado e a soprar um vento frio e terminou ficando um dia até bem escuro.

Em Tubarão nada de bonito cheguei a ver, e sim estava cheia daqueles árabes velhacos. Comprar em Orleans é muito mais tranqüilo, pois os donos das vendas são todos conhecidos e são muito mais confiáveis.

À noite estávamos de volta e a Luzija foi me buscar com a “Marsa”. Papai não voltou naquele dia; a noite estava por demais escura e depois ainda começou a chuviscar. Voltamos todos montados de Orleans: eu a Luzija, os Klavin e os Leimann. Chegamos bem em casa, apesar da negra escuridão, que podia até furar os olhos. Ainda não sabemos quem será o novo intendente.

No dia 15 faleceu o velho Wilmans e no dia 16 foi feito o funeral. Ele toda vida morou em Mãe Luzia, mas quando doente, sem mais poder se cuidar e nada mais poder fazer, voltou a morar com a mulher em Rio Novo.

Na noite de 16 de outubro teve a festa de aniversário da União de Mocidade da Igreja de Rio Novo. Como foi a festa eu não sei, as estradas estavam lamacentas, tanto que quando as pessoas passavam fazia barulho. Foi servido café com mistura e isso custou $300 por pessoa.

No dia 9 de outubro foi a festa do Jubileu de 25 anos da Igreja Batista de Mãe Luzia e para tanto foi convidada a nossa igreja e também a do Rio Novo. Da nossa igreja foram o Robert Klavin e do Rio Novo uns quatro. Como foi o Jubileu não sei ao certo, mas é possível que o Roberto te escreva contando.

Na quarta feira passada, dia 24 de outubro, foi o casamento do Jahnis Frischembruder com a Laura Seeberg. O casamento foi memorável, como bem merece uma filha única. Mas a Laura “não tinha alimentado o cachorro nem o gato”: o tempo já estava chuvoso, mas nem no dia anterior nem no dia depois choveu tanto como naquele dia. Deste a alta manhã roncava trovoada, relampejava e caía água.

Todos os moradores da localidade foram convidados, menos nós. De Orleans foi convidada a banda de música, bem como outras pessoas importantes que não vieram ou não puderam vir. A solenidade na igreja foi às 12 horas, e depois todo cortejo subiu o morro em direção a casa dos Seeberg. Lá houve a maior comilança e beberança da paróquia, e não sei quantos centos foram gastos na festa do casamento, pois tudo devia brilhar e reluzir. Além disso, em toda a colônia nenhuma moça teve um enxoval tão completo e tão grande como o dela — teriam sido gastos milhares de réis.

Tempos atrás o Victor Karklin esteve interessado em se candidatar a “genro”, mas não se apressou o suficiente e o outro passou ele para trás. E por isso também não foi à festa. Os Karklin teriam dito que se soubessem de tanta riqueza no dote, teriam se apressado mais; também eles só procuram as riquezas e estas não são muitas.

A segunda festa do casamento foi no domingo na casa nova, defronte aos Frischembruder, recém-construída no outro lado rio, onde era a antiga colônia dos Match. Esta casa foi construída de tijolos e seria a melhor de toda colônia, especial para o Jahnis.

Há pouco tempo houve noivado da Ana Burmeister com o Alfredo Leepkaln. Quem não gostou foi a senhora Wilman, pois parece que queria o moço para a seu genro e viu a sua filha ser preterida. A “distinta” pôs a boca no trombone e depois chegou a conclusão que não perdeu tanto, pois esse moço Leepkaln não é muito afeito ao trabalho.

Pode ser que em breve o Arnold Karklin e o Augusto Felberg viajem para São Paulo. O Jurka tem escrito que lá em Nova Odessa que qualquer um ganha 2$000 por dia e assim eles também iriam para Leijputriju [NOTA: Pronuncia-se "Leiputriu" e é um lugar fabuloso e imaginário onde mana o leite e o mel, equivalente a Shangrilá ou El Dorado]. O Matiss, que também está lá, escreve que lá tudo é caro. O que adianta ser tudo tão caro, se nada se tem para vender?

Bem hoje chega, outra vez escrevo mais. Muitas lembranças de todos. Fico aguardando longa carta sua.

Olga

PS [Escrito à lápis]. Junto estou enviando 100$000. Recebemos a carta escrita em 7 de outubro e também os jornais. Se puderes venha para casa, mas se tem lugar onde ficar decida você mesmo o que quer. Orleans, 01 de novembro de 1918.

Se um ajudar o outro | Olga Purim a Reynaldo Purim

Escripta em Letto
[nota em português no original]

Rio Novo, 30 de abril de 1918

Querido Reini,

Primeiramente, muitas lembranças. A tua carta escrita no dia 12 de abril recebemos no domingo passado, junto com os boletins verdes. Obrigado. Você diz que teria mandado uma carta em resposta àquela em que enviamos aquele dinheiro; esta até agora não recebemos, mas pode ser que ainda chegue, pois esta veio muito rápido. Fazia tempo que não recebíamos cartas, pois a última, que tinha sido escrita em brasileiro no dia 4 de março, tínhamos recebido na Quarta-feira Verde [Quarta-feira Santa]. Esta carta eu respondi já faz umas duas semanas, e ainda não sei se recebestes. Também para a minha carta escrita em 26 de fevereiro não tenho resposta, e esta tinha bastante novidades. Por favor mencione nas respostas as datas das cartas que você esteja respondendo para facilitar o controle. Também podes mandar as cartas dentro dos jornais que ninguém abre. Naqueles últimos três jornais que você mandou, onde você escreve sobre as guerras, podes escrever mais sobre qualquer coisa.

Aquele emprego será para o ano inteiro ou apenas para alguns meses? Se for para o ano inteiro, por que se preocupar, pois dinheiro não deverá mais faltar.

Qual foi o teu novo colega que te emprestou dinheiro? É novo na escola ou já é velho conhecido? Tens visto o filho do Diretor de Orleans [NOTA: Victor, filho do Diretor da Empresa Colonizadora Grão Pará, Sr. Etyenne Staviarski]? Ele levou o filho para o mesmo Colégio em que estudas, mas em que prédio e em que classe não sei. O “Diretor” elogia demais esta escola, bem como o seu diretor, pois ele ficou uma semana como hospede de honra da mesma e nem precisou ficar em hotel; ele também elogiou a ordem e a disciplina exemplar em todo ambiente e tem certeza de que seu filho não vai ficar andando pelas ruas, pois existe uma organização que ocupa todo espaço e tempo disponíveis.

Vou aguardar uma longa carta sua. Eu quase não tenho nada para escrever. Aqui estamos passando meio bem e estamos meio saudáveis. Esta semana, após um mês em casa, pude ir trabalhar na roça. Papai também está com dor de dentes. O tempo está magnífico; diversas manhãs estiveram muito frias e chegamos a pensar que haveria geadas.

Hoje a comunidade da vizinhança está reformando a estrada. Papai já trabalhou outros dias e vai ter que trabalhar ainda mais. Os Italianos também fizeram a sua parte.

Você pergunta como está crescendo o feijão na nova coivara (junto do mato), mas ainda é cedo para se saber. Está muito verde e embaraçou muito subindo pelos pés de milho já secos, tanto que está quase tudo verde. Se não houver algum frio maior do que o normal, depois de arrancar e bater é que a gente fica sabendo da real produção. Aquele trecho que foi plantado mais no cedo pelo Puisse, ele trouxe uma amostra que parece bem boa [NOTA: "Puisse" refere-se sempre a Arthur (Otto) Purim, nesta época com cerca de 12 anos de idade].

Sabe o Puisse plantou para si ½ litro de feijão, e agora calcula que vai colher muito e vender muito bem e que com este dinheiro vai comprar: um guarda-chuva (porque aquele velho que você deixou está muito furado), mais um pente e um espelhinho de bolso. Será que vai dar?

Sabes se o Victor [NOTA:Victor Egers, cunhado do Ludwig Rose], aquele teu pedaço de parente, não tem escrito para o Faters para que ele debande para São Paulo? Há um mês atrás ele falou com a mulher dando sinais de que tinha vontade de ir; não será nenhuma surpresa se ele for a São Paulo.

Daqui a uns dias quem sabe tenhamos um vizinho novo. Os rionovenses estão mandando o Augus embora de seu emprego como zelador da igreja, e isto é normal entre eles. Para o lugar dele está vindo o grande Bruvers de Orleans, onde vai vender tudo; ele vai trabalhar cuidando da Igreja e quando morrer deixará toda a sua riqueza para a mesma. Vamos ver se vai dar certo!

Logo teremos uma festa de medições dos terrenos. Os agrimensores vão medir o do Karkle, depois do Enoz [Ernesto Grüntall] e depois o nosso. Se um ajudar o outro não haverá necessidade de pagar ajudantes.

Chega. Escreva bastante. Ainda mui afetuosas lembranças de todos nós. Desejamos também copiosas bênçãos de Deus daqui para frente.

Olga

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