Se você tivesse ido encontrar-nos no Rio de Janeiro……| De Lilija Purens para Reynaldo Purim – 1923 -
Nova Odesssa 26/VIII/23
Saudações, meu querido primo!!!
Que a paz de Deus e sua misericórdia estejam contigo em todas as tuas atividades.
Já passou bastante tempo que recebi a tua carta. Perdoe meu primo e não pense que eu sou uma displicente que não responde as cartas, mas é muito mais difícil quando a gente mora em casa dos outros como empregada. Quando morava com a mamãe, eu fazia o que queria e aqui eu escrevo quando alguém decide que eu posso escrever.
Agradeço muito por que você se apressou em me responder, pois já há muito tempo estava com saudades tuas, mesmo porquê desde a Letônia o teu nome já era muito familiar. Quando os seus pais escreviam para a Letônia já, contavam que eu tinha primos. Os teus familiares de Rio Novo mandaram a fotografia deles, está o Tio, a Tia, a Olga, a Lúcia e o Artturs, mas você não está nela. Eu acho que pela fotografia eu os conheço como que pessoalmente, mas você não. Peço se possível, que me mande a tua fotografia para que também o veja.
Eu também te mandei a minha fotografia, mas eu estou muito morena queimada pelo sol e você esta proibido de mostrá-la a qualquer pessoa, porquê a mesma não ficou boa. Quando nós nos encontrarmos você vai me conhecer e verá em que brasileira eu me tornei. Às vezes eu tenho medo de mim mesma.
Mas você, por favor, mande o seu retrato o porquê eu não tenho muita paciência para esperar até este encontro. Você ainda pergunta pelos meus familiares. Agora ainda eles estão morando no acampamento. Mas pelo que parece eles estarão logo saído de lá. Ontem eu recebi uma carta deles que diz que estão se aprontando para viajar para o Rio Novo para encontrar-se com os teus familiares. Eles têm escrito diversas vezes que estão prontos e em condições de nos receber.
Você escreve que não entende porque nós fomos para o Sapezal. Isto aconteceu porquê que da língua nós não entendíamos uma só palavra e o endereço nós realmente não sabíamos como chegar a este Rio Novo. Quando saímos da Letônia, já tínhamos a intenção de ir morar com o tio, mas em chegando não sabíamos mais o que fazer, então fomos com os demais letos para Sapezal. Se você tivesse ido encontrar-nos no Rio de Janeiro, então não teríamos ido a Sapezal.
Mas parece que este foi o desígnio do bom Deus para que nós passássemos por este sofrimento e estas dificuldades. -Se Deus quiser um dia, nós vamos nos encontrar.
Agora escreva quanto tempo ainda tens que freqüentar a tua escola?
Quando terminar os estudos, vais para casa ou vais trabalhar nas Igrejas?
Também escreva contando sobre as suas irmãs, pelas fotos, a mais alegre parece que é a Olga e a Lúcia mais devagar. Mas descreva como realmente elas são.
Entre nós eu sou a mais alegre e a Alma a mais lenta e na estatura eu também e sou mais alta. Estarei aguardando breve a tua carta.
Tua menor irmã Lilija
[Escrito na lateral]
Oh! Meu querido Reinhold. Como é difícil escrever o teu endereço, acho que não vou conseguir escrever como é preciso.
…e em um só dia pode-se experimentar todos os climas das quatro estações| De Lucia Purim para Reynaldo Purim -1923-
Rio Novo 19 de Agosto
[Deve ser 1923]
Querido irmãozinho! Saudações!
Primeiramente envio-te muitas lembranças, minhas.
Hoje está chovendo muito por isso estou escrevendo uma carta para ti, porque a última carta que recebemos de você foi uma em abril para mim e outra em maio para a Olga e para essas as respostas nós já mandamos no dia 29 de junho acompanhado com um para de meias de lã. Mas resposta, tua nenhuma. Aqueles jornais que sempre você mandava não temos recebido e não sei se despachou mesmo ou perderam-se pelo caminho.
Não entendo porque ninguém escreve, por exemplo, a Selma [Klavin] e o Victors [Staviarski] não têm escrito uma linha sequer, nem para nós nem para os outros parentes deles. Não sabemos se vocês estão doentes ou com preguiça mesmo.
Aqui tem muita gente doente com influenza e pode ser que você também esteja de cama.
Aqui tem muita gente de cama, mas nenhum de nós ainda se entregou.. É possível que esta doença seja causada pela irregularidade do tempo, frio, quente, chuva, vento e em um só dia pode-se experimentar todos os climas das 4 estações.
No dia 10 de julho tivemos uma grande ventania, tão forte que a gente não podia andar em sentido contrário ao vento e parecia que o mundo ia acabar derrubando tudo. Duraram dois dias, estes ventos muito loucos, e depois vieram as grandes geadas. Estas geadas mataram tudo, o que encontraram pela frente. Depois vieram 3 semanas de tempo bom, mas continuou um frio terrível. Bem agora as chuvas chegaram, mas não na intensidade que antes e tudo começou a brotar e ficar verde, pois a primavera está chegando. A grama está começando a se renovar nos pastos que até a pouco era um cinza amarelado como resultado das grandes geadas.
O milho nós colhemos em 3 semanas. Começamos no dia 9 de julho e terminamos dia 28. Quanto rendeu eu ainda não calculei. Foram trazidas mais de 30 carradas que já estão no paiol. Este ano não usamos cavalos para trazer porque não temos nenhum menino pequeno para dirigir os animais.
Agora é mais fácil usar o carro de bois com o Barroso e o Branco na canga eles trazem 6 cargas de uma só vez e ainda o passeio de carro na volta.
A cana de açúcar também já cortamos e moemos. Estas este ano não cresceram direito. O vento derrubou muito e depois ainda a geada matou tudo. Este ano em tudo rendeu 3 tachos, mas ninguém sabe por que não dava ponto de açúcar. Podia ferver o tempo que quisesse, quase começar a queimar, mas de ponto de açúcar, nada. Só puxa-puxa [Ora puxa-puxa é puxa puxa. Ao ser descarregado o tacho com uma carga de açúcar já pronta o mesmo ainda tinha uma pequena quantidade de melado fervendo grudado nas paredes do tacho de cobre. Ai era solta por gravidade outra carga de garapa fria no tacho quente, então aquele melado era desgrudado com uma concha feita de cuia de um porongo. Aquilo era a delicia chamada puxa-puxa]
e melado-forno. [Melado era tirado um pouco antes do ponto do açúcar e este era usado na alimentação humana.O outro era o melado do cocho, que era o resíduo que escorria do açúcar]
Agora estamos numa grande comilança de melado. Quem sabe você também queira comprar algumas latas de melado. Está muito doce e pode ser usado para adoçar o café e também muito bom para ser passado no pão. Se você quiser experimentar e só vir para cá. A explicação técnica porque não deu açúcar e somente melado foi que a cana usada tinha sido apanhada e morta pela geada.
No dia 29 agosto vai ser comemorado o dia de Ação de Graças mais conhecido como Festa da Colheita. Se quiseres poderás vir para a festa, mas não esqueça de trazer uma mensagem ou uma poesia para apresentar no programa. Também podes trazer um hino para ser cantado em solo. Vais ganhar café com leite acompanhado com pão doce, bolos e bolachas quais não podem faltar em uma Festa da Igreja, tendo mais coisas ou menos isso sempre tem.
Na igreja tudo corre na monótona mesmice. Estávamos esperando o Vilis [Leiman], mas já soubemos que ele não vem mais. O motivo eu não posso afirmar.
Bem agora chega. Se você, alguma vez, tivesse escrito tanto, teria sido muito bom e ainda por cima você só escreve de um lado só do papel.
Como tu estás passando? Estás com saúde? O que estás fazendo? Lá também vocês tiveram muito frio e geadas?
Ainda uma coisa: você quando esteve aqui me prometeu uma receita para fabricar gelo, mas não cumpriu o prometido. Por favor, cumpra o que prometeu agora.
Todos estão dormindo e roncando. Tenho que ir também. Mui amáveis lembranças de todos. Lúcia
As portas estão abertas e é a minha grande oportunidade. | De Carlos Leiman para Reynaldo Purim – 1923 -
Paranaguá 7 de agosto de 1923
Querido Reinhold
Saudações
Recebi a tua carta e junto também as cópias dos hinos. Obrigado! Inteiramente triste e até deprimido lembrando ter perdido mais esta Chautauqua, [Acampamento anual dos Batistas no Rio de Janeiro] perdi, mas não tinha outro jeito. Agora trabalho na Escola da Igreja, na Igreja e ainda visito mais duas. Trabalho demais. De um modo geral está tudo bem pelo menos temos paz porquê o grande agitador foi embora, mas os planos dele continuam. Ele quer me tirar daqui e mandar embora. Eu até pensava que ele fosse conseguir antes do que eu fosse por minha conta. Eu estou esperando autorização da “Junta Estadoal” para transferir-me para Laguna ou em qualquer cidade vizinha, longe destes pretensos governadores mandões. Agora é o José Cascão que está fazendo tudo para ser reconhecido como reverendo e começar a mandar. Para tanto tenta indispor as minhas Igrejas e mesmo o Deter contra mim, mas não sei quão longe ele irá. Mas de qualquer modo é desagradável esta campanha. O Marques não deixou saudades e ninguém mais fala nele. O Abrahão está a chamar e levar pessoas daqui para Ponta Grossa.
Estive em Rio Branco e Porto União. Eles estão indo bem, o que faz falta é um obreiro local para um trabalho contínuo.
No Rio Novo não tenho ido. Quem sabe depois de toda essa propaganda eu consiga ir, talvez lá pelo fim de setembro.
Os Klavim de Rio Novo escreveram e pedem para ir visitá-los. Parece que eles lá naquela Igreja estão no fundo do vale. Fazem muitas festas com muito café e bolos para comer e nos intervalos, remoendo alguma divergência. De verdade como eles estão por lá eu não sei porquê quase ninguém me escreve com vai naquele universo.
Aqui o jornal, “O Baptista”, sai uma vez por mês. Já há uns dois ou 3 números atrás não tenho visto e não tenho muito interesse.
Estive pensando e estou convencido que o meu campo de trabalho é no Estado de Santa Catarina. Espero até o fim do ano mudar para lá (se conseguir concordância para tal) As coisas tem mudado e está claro o que eu devo fazer. As portas estão abertas e é a minha grande oportunidade.
Você também poderia começar lá. Seria melhor de que em qualquer outro lugar. Eu sugiro Florianópolis, abrir uma escola e começar o trabalho. Ou não acha? Com o Deter é muito fácil tratar e assim sair de perto daqueles agitadores.
No Brasil agora está grassando aquela antiga praga; o nacionalismo. Existem lutas entre os missionários e as igrejas. Em Santa Catarina não existe ainda esta bobagem e está livre disso. Aqui no Paraná já existem alguns destes extremistas. Como vai este movimento por lá? Soube que alguns seminaristas de Pernambuco foram mandados de volta. No Rio também surgiram muitos destes radicais?
O que falam da próxima Convenção?
Qual é o grupo que vai ficar na direção da Convenção?
Os missionários ou os “nacionalistas”? Espero ter respondido a todas as tuas perguntas e elaborado novas questões. Se escreveres respondendo, eu continuarei.
Até breve
Com uma fraternal saudação
Teu
Carlos Leiman
Fiquei todo tempo olhando para baixo tentando ver você… | De Lilija Purens para Reynaldo Purim – 1923 -
Nova Odessa [Sem data]
Boa Noite!
Que o Bondoso Deus do Céu te abençoe!! De coração meu querido primo sinceramente eu te saúdo e com estas poucas linhas e desejo-te muitas bênçãos de Deus para todas as tuas atividades. Com esta carta quero anunciar que já estou no Brasil, não bem no lugar que eu esperava estar, mas de qualquer modo estou aqui. Ainda que fisicamente ainda não o conheça, mas pelo que o meu papai contava que eu tinha parentes no Brasil. Considerando, como primo encorajei-me e estou escrevendo.
Agora quero contar como eu me sinto na minha nova pátria. Se alguém tivesse me contado enquanto estava morando na Letônia que eu iria conhecer o Brasil eu nunca iria acreditar. Como tudo aconteceu eu não consigo compreender. Vivíamos na mais completa paz e felicidade, lá na Letônia e nunca tínhamos pensado em mudar de vida até que papai começou a falar sobre um irmão e a família dele que morava no Brasil, e tinha vontade de vê-lo e os filhos dele. Assim começamos a nós aprontarmos para viajar para cá. Nós estávamos curiosos para conhecê-los. No princípio os nossos parentes e conhecidos não nós queriam deixar partir daqui da Letônia e tinham pena de nós, mas, quando viram que nada iria adiantar, pois nós não ouvíamos conselhos de ninguém, então deixaram de falar, então deixaram-nos em paz, sem antes de exigir uma promessa que escreveríamos contando tudo daqui e desejando uma boa viagem. Se nós gostássemos da nova terra, eles viriam também. Quando vendemos tudo e tiramos os documentos para a viagem, então em outubro começou a nossa viagem que foi muito difícil. Viajando e seguindo o longo caminho tive oportunidade de conhecer o que nunca imaginara poder conhecer. Quase metade do globo terrestre.
A viagem se tornou tão longa e monótona que nós ficamos aflitos que chegasse ao destino. No dia 13 de outubro sai de minha casa, onde tinha vivido e crescido, aquele momento quando ia saindo foi tão difícil que não consigo descrever a ninguém. Deixar a casa com o seu pequeno jardim, a horta tão familiar. Aqueles caminhos tão queridos, que eu corria desde menina, aqueles animais que eu alimentava. Aquele pianinho que eu passava o dia tocando. Nuvens negras de preocupação enchiam a minha cabeça. Era para mim difícil imaginar, como entrou na nossa mente mudar para um país distante e desconhecido como o Brasil. Mas nada adiantava, tínhamos que deixar aquelas paisagens tão caras e familiares e se mandar para um mundo desconhecido.
A grande viagem começou de trem. Até chegar na beira mar [porto] para embarcar no navio. Atravessamos a Alemanha, Bélgica até chegarmos na França. Ali embarcamos no navio para o difícil caminho no mar. Ficamos 19 dias no mar, mas durante 8 dias passamos sem ver senão céu e água. Quando o nosso imenso navio parou no Rio de Janeiro. Fiquei o tempo todo olhando para baixo tentado ver você vindo encontrar-nos, pois sabia que você estava estudando aí. Mas debalde, não apareceu ninguém e com os corações realmente entristecidos tivemos que continuar até o porto de Santos.
Lá desembarcamos todos juntos e fomos levados para a Hospedaria dos Imigrantes, onde ficamos dois dias e daí tínhamos que seguir em frente para a mata virgem…. O que eu tinha no coração naquele momento eu nunca poderei descrever. Os pensamentos mais macabros perambulavam pela minha mente. Não queria falar com ninguém, apesar dos irmãos tentarem me acalmar dizendo que eu deveria ficar alegre, mas era totalmente impossível para mim. O que nós esperava na mata, mais ou menos você já sabe. No acampamento morei 7 meses e então fiquei muito doente e já estava me aprontando para ir para o lar eterno, os meus arranjaram para que ficasse com outros irmãos da Igreja que já moravam em Nova Odessa para me tratar.
Agora estou morando com a família do irmão Fritz Puke como empregada doméstica.[ Deenas meitu – Literalmente, moça para trabalho de dia, diarista] Os trabalhos são os mesmos como em qualquer família, mas eu já estava desacostumada.
Na realidade eu queria ir para o Rio Novo, para ficar com os teus familiares, mas dinheiro para a viagem, eu não tenho e ganhar tão rápido não é possível, portanto terei que viver por aqui. Se Deus determinou para que nós nos encontrássemos, então, isso vai acontecer.
Estarei esperando uma longa carta sua. De coração te amando tua desconhecida prima Lilija com 18 anos de idade __________________________________________________________



