…gastar um bom meio dia para ler e contar os inúmeros erros | De Lucija Purim para Reynaldo Purim – 1923 -

Rio Novo 25 de junho [de 1923]

Querido Irmãozinho!!

Saudações! A tua carta escrita no dia 30-4-23 recebi ontem à noite. Muito obrigado. Esta, porém foi daquelas que demoraram quase dois meses para chegar e também foi aberta e ainda bem que tudo estava dentro. Agora não chega nenhuma carta sem que o pessoal do correio de Orleans não a tenha aberto e lido. Se o encarregado dos correios vai com a cara do destinatário até que ele entrega, senão ele vende para os donos das vendas [casas de comércio] como papel de embrulho.  Aqui na colônia existem pessoas que assinam jornais de maior porte e passam semanas, meses sem que chegue nenhum e às vezes calha que eles vêem o pessoal das Vendas embrulhar café com os jornais com o nome deles e quando interpelados, eles dizem que foi o Alfredo Balod quem vendeu para eles.

Por ai você pode avaliar como a ordem reinante tem descambado na cidade. Os jornais da região têm denunciado até com caricaturas, mas nada tem adiantado porquê o Alfredo é genro do Intendente [Prefeito nomeado pelo governador ou eleito???] e por ai você pode ver que governo nós temos por ai, que tem por única preocupação destes homens é ganhar dinheiro a qualquer custo.

Por isso também os impostos foram aumentados, neste ano pela terra teremos que pagar 16$000 quando no ano passado foi 13$000, o imposto do fogo [Imposto do Fogão] era 5$000 e agora é 12$000 e eu não sei direito, mas há uma conversa que teremos pagar 12$000 pela estrada e ainda outras leis e impostos que ainda não foram efetivados quando serão cobrados pelas vacas, cavalos, carros e carroças. Por isso os colonos estão em guerra com o Governo.

Hoje o tempo está nublado e chuvoso, mas até 4 dias atrás estava limpo e muito frio, a estrada está uma lamaceira só e os atoleiros só não são maiores porque assim já não cabem na estrada. Lá também está chovendo agora?

No Domingo passado à noite foi à noite de apresentações da Mocidade. Faz umas duas semanas que o Auras [Osvaldo Auras] chegou em casa voltando de Ijuy e naquela noite aproveitou para contar as peripécias para chegar de volta a Rio Novo. Foi muito interessante ouvir contar tantas dificuldades que ele teve na viagem. Na ida ele pegou o navio e foi direto a Porto Alegre e daí para frente de trem. A chuva não falhou nenhum destes dias. Na volta também veio de trem. O combóio e todas estações estavam repletas de soldados. Até que enfim chegou até Porto Alegre. Mas o navio já tinha partido há tempo. Queria encontrar alguém que pudesse trazer por terra, mas ninguém queria viajar numa época de revolução. Mais tarde encontrou um judeu que trazia passageiros até Campinas [Araranguá], de automóvel pela beira do mar. No princípio até que a viagem era agradável e vinha bem rápido. Mais adiante encontraram grandes rios quais não eram possível passar, então ele atravessou numa balsa e continuou a viagem numa carroça puxada por cavalos e mais adiante ela também quebrou e daí neste próximo trecho ele veio num carro de bois e depois de carroça puxada por cavalos novamente, chegou a Criciúma. Daí de trem a Orleans via Tubarão chegando feliz em casa trazendo a sua sogra e o cunhado juntos.

Corre a conversa por aqui que o Villis Leimann não deverá vir para cá. –

Bem agora já chega. Agora que eu consegui começar escrever você terá que ter paciência e gastar um bom meio dia para ler e contar os inúmeros erros. Mas seria muito bom que você também escrevesse bastante.

A Olga também deve ter “imprimido” a sua carta de muitas léguas de comprimento e assim você vai ter muito o que ler. Escreva uma longa carta sobre tudo que acontece por ai. Perguntar eu não pergunto mais nada porque não vale a pena, você nunca responde as minhas indagações. Assim sendo continuo a aguardar uma longa carta sua, porquê está na hora de ir para cama.

Eu na realidade não estou com sono, mas as minhas mãos estão geladas e é por isso que a minha caligrafia está tão bonita. Muitas lembranças da Lúcia.

 

Escrito nas laterais.

Se tivessem chegado os jornais e os acordoamentos dos violinos então poderíamos ir tocar na sua grande festa. Mas os violinos estão sem as cordas e a guitarra está empoeirada. Vamos esperar pelo verão quando os dias estarão mais longos então teremos mais tempo para acertar e afinar tudo muito bem. Bem não esqueça de junto com o convite mande junto algum automóvel.——

Você nem pode imaginar como hoje rendeu a minha escrita. Não pense que é só para você que eu tenho que escrever, pois nós temos parentes no mundo inteiro. São 2 as cartas que escrevi hoje como atirar eu atirei e matei dois coelhos com um tiro só, apesar de agora já ter passado da meia noite.

 

 

 

 

 

 

 

…vigiar aquele boi que gosta de pular as cercas para ir comer milho nas roças. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Açúcar 21 de março de 1923

Querido Reini:

Primeiro envio votos de muito bons dias e amáveis saudações. Eu igual a você sempre querendo matar dois coelhos com uma cajadada fiquei esperando mais alguma carta para responder duas ao mesmo tempo e como não veio mais nenhuma não vale a pena esperar mais. A tua carta escrita no dia 7 de março, com aquele convite recebi ontem durante a Festa de Aniversário da nossa Igreja. Percebemos que você foi esperto mandando aquele convite para aquela sua festa lá e tão bem calculado que quando a carta chegou a festa já tinha passado longe, para a gente não poder ir.

Você está fazendo como alguns Rio Novenses que fazem festas de casamentos e endereçam e subscrevem os convites, mas não os põem no Correio já. Ai colocam o convite no correio um dia antes. As pessoas recebem o convite em cima da hora e é claro não podem comparecer. Então eles dizem: oh nós os convidamos para o casamento, mas eles são tão orgulhosos que não quiseram vir.

Você não tinha algum aeroplano que nós pudéssemos ir voando, que grande coisa seria. Poucas horas de vôo e nós já estaríamos lá. E noutro dia de manhã estaríamos de volta em casa. Não podemos deixar a casa vazia, sem ninguém durante a noite.

Durante o dia nós temos que vigiar aquele boi que gosta de pular as cercas para ir comer milho nas roças. Também temos que tirar leite das vacas etc. Se nós tivéssemos ido levaríamos uma balde cheia de leite e muitos quilos de manteiga. Assim sim, seria uma grande festa para você. Pena que tudo já passou. Como realmente foram as suas festas?
Naquele dia perto da noite estava muito nublado, brusco e chovia um pouco. Se tivesse sido aqui, aquela festa iria pegar muita lama até a altura dos joelhos.

Ontem foi aqui a Festa de Aniversário da Igreja. O tempo estava maravilhoso. Quem dirigiu foi o Emils. [Emils Anderman]
Tinha muita gente. Cantou o Coro da Igreja, o Coro da Mocidade e o Duplo Quarteto de Homens cantou 3 hinos. Os oradores foram o K.Seebergs, o Wilis Slegmann, o Juris Frischembruder e o G. Auras. Foi realmente uma festa maravilhosa e transcorreu em perfeita paz.

As grandes chuvas amainaram e o nosso riozinho [O rio do Rodeio do Assucar]
está realmente com pouca água. Nós deveríamos estar fazendo farinha de mandioca, mas a água está muito escassa para mover o engenho e tempos atrás quando não precisávamos havia água sobrando.

Dos nossos parentes de São Paulo, nada temos recebido. O Pappa faz tempo que escreveu, mas não temos certeza sem não ficou retida na censura de lá.

O Matiss Frischembruder escreveu de lá contando mil maravilhas. É claro que ele tem que dizer que está tudo muito bem organizado, pois ele está envolvido na mesma sopa.

Segundo ele, do pessoal de Nova Odessa, há muita gente que apóia o Inkis. O Malvess é um deles, que por ser genro do Inkis cuida da carteira do dinheiro comunitário, ainda que pecaminoso. O outro genro o Willis Lustinhs é o responsável pela cozinha comunitária, e assim todos pedaços de parentes tem o seu emprego garantido e eles nunca precisarão jejuar 3 vezes por semana, porque já são perfeitos.

Bem já se vão 3 semanas que eu te mandei uma carta na qual escrevo que o Andreys escreveu lá da Latvia e nós vamos ter que responder. Teremos que dizer que nada sabemos do tio Jekabs e a família que foi para o “deserto “. E se eles não escreverem para ele como estamos passando, nós também nada poderemos fazer.

Você bem que poderia escrever uma carta para o primo Joãosinho. O Andreys perdeu os demais, pois morreram lá de fome na sua fuga da guerra e só ficou o Joãosinho, que não pode continuar os estudos porque não tem dinheiro.

Agora o Joãozinho trabalha numa repartição do Governo da localidade como escrevente. Ele já deve estar bem crescido, pois é bem mais velho que o nosso Arthur.

No Domingo passado recebi uma carta dos Fritz lá da Argentina. Agora todos estão bem, é que a Christine, este doente por dois meses e ele também por um mês, mas agora estão todos bem.

O velho Leimann está cada vez mais gordo e saudável e somente o que atormenta o coitado é a sensação de inutilidade sem ter o que fazer o tempo não passa e quase não tem distração nenhuma e nem outros letos para conversar.

Bem agora chega senão você não vai ter tempo para lê-la.

Onde agora anda o Janka Klava? Ou ele saiu da escola com aquele “passe”? Alguns outros tem escrito que ele foi para a América num navio como servente.

Este ano há muitos estudantes? O Inkis e o Schanis não voltaram atrás? Aqueles letos de Rio Branco continuam lá? Chegaram outros novos de lá?

Não espere matar os dois coelhos com um tiro só. Responda carta por carta que eu estou aguardando. Lembranças dos demais. Olga.

…soldados para as entradas da cidade com ordens para proteger a cidade, mas não atirar primeiro| De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1923

Rodeio do Assucar 2 de março de 1923

Querido Reini! Saudações!

A tua carta escrita no dia 7 de fevereiro eu recebi hoje a noite, os demais de casa já a tinham recebido ante ontem [Pelo motivo de haver dois domicílios] e eu hoje mesmo vou começar a resposta.

Você reclama que não recebe cartas de casa e estas demoram, mas eu escrevi duas longas cartas que você recebeu e se elas tivessem sido extraviadas ai então haverá um grande prejuízo.

Você diz que as últimas notícias são referentes ao mês de novembro. Pois naquela ocasião, todos nós escrevemos convidando para você vir passar as férias em casa e assim ficamos esperando terminar as aulas e você vir para embora.

Quando as aulas terminassem você não, estaria mais lá, então prá que escrever para lá. Continuamos esperando quem sabe, ele tenha ou queira passar as Festas lá. Na véspera de Natal a Luzija foi até Orleans pronta para trazê-lo como grande e importante cidadão, mas nada, então você ainda esperava que em pleno Natal estivéssemos escrevendo cartas, quando tínhamos certeza que você estaria aqui.

Nesta época chovia muito e devido ao muito trabalho, quando chegava a noite, vinha um sono tão profundo que não era possível agüentar. Então no dia 19 de janeiro mandei uma longa carta e quando levamos ao correio naquele mesmo dia recebemos aquela sua carta escrita no dia 26 de dezembro e respondendo a esta no dia 9 de fevereiro mandei outra longa carta e ainda naquele mesmo dia a Luzija mandou um cartão postal a não ser que estas cartas não tenham saído de Orleans.
Os cartões que você diz ter mandado aqui não apareceram. Por ai você pode ver que não faz tanto tempo que nós não escrevemos, mas sim outras coisas estão erradas como o Correio.

Agora sim há alguma coisa de novo para escrever apesar de nós aqui estarmos em tempo de guerra por aqui e não sei se vai passar pela censura.

Aqui há semanas atrás, houve guerra e ameaças de luta e ainda não sei o que mais vai acontecer. O povo não está satisfeito nem em paz com o Governo por causa dos altos impostos e então se organizaram partidos dos italianos, poloneses, brasileiros, todos de todos os lados se dirigiram a Orleans à noite e fizeram uma grande reunião na frente da casa do Intendente onde falaram e reclamaram.

Isto foi num Sábado e como até Segunda feira nada tinha mudado foi programada uma invasão sobre a cidade de Orleans [Guerra da Palmatória] para Terça feira e ai os letos também foram. Mas como em tudo, haviam traidores e chegado antes e contado que os colonos marchariam sobre a cidade a policia mandou pelotões de soldados para as entradas da cidade com ordens expressas de proteger a cidade, mas de não atirar primeiro. A grande maioria fugiu e outros entraram em luta corporal com os soldados e foram presos. Tudo o que aconteceu eu não sei claramente, mas nas próximas cartas eu prometo esclarecer mais e ainda vamos ver como isto vai terminar.

O tempo, esta bastante chuvoso, mas não tanto como antigamente. Tempestades e tormentas com vento também vêm ocorrendo com freqüência, mas para nós não causaram nenhum prejuízo e daqui para a frente a gente não sabe, pois ainda tem muito milho ainda pendoando. [As ventanias derrubavam quebrando as hastes do milho causando prejuízos às lavouras.] Melancias este ano não deram, para não dizer que não deu nada deu uma só. Pepinos também deram menos que os outros anos.

Agora mesmo recebemos uma carta do Andreys [tio] da Letônia. No ano passado quando recebemos outras cartas dele eu e o Pappa escrevemos longas cartas e o Jekabs ainda estava lá, mas, quando ele recebeu o Jekabs e a família já tinham viajado para o Brasil. Ele em seguida tornou a escrever para o Jehkabs que já estava chegando no Brasil avisando que não fosse para o deserto, pois nós o estávamos esperando e qual eram os planos e o que nós fazíamos aqui.. O Andreys não veio porque não tinha dinheiro e também porque estava doente e por uma parte foi bom porque ele não concorda com infelizes espiritualistas que estão fugindo para o deserto. Ele tinha recomendado ao irmão Jehkab que não ficasse em São Paulo e sim viesse para cá, mas parece que ele não quis assim. A carta já ficou muito longa e eu não tenho mais tempo para escrever tudo. Outra vez eu escrevo mais. Lembranças de todos e também da Olga.
Escrito na lateral: Não admire que as cartas não cheguem, pois agora o agente do correio é um leto que pode censurar tudo. –

…com as fronhas lindamente bordadas ….| De Lucia Purim para Reynaldo Purim – 1922

Rio Novo 20 de Abril de 1922

Querido Reynold!

Então eu vou ter que escrever novamente, pois já faz bastante tempo que você não tem escrito nada. Ainda que eu esperei e achava por você estar de férias poderias bem escrever e esta era a sua obrigação.

Eu já mandei as roupas de cama com as fronhas lindamente bordadas e ainda mais tudo que foi feito à mão foi meu trabalho pessoal. É possível que estás acostumado viver com roupas mais elegantes, com mais luxo ainda e quem sabe estas que eu te mandei não sirvam ao seu alto nível…

– Só aqueles 3.50 metros de tecido custaram 5$000 então calcule quanto custou a mão de obra para costurar e bordar. Será que lá ficaria mais barato?? Aquele tecido estampado multicolorido das camisas custou 1$200 o metro e foi gasto aproximadamente 3 metros. Estas camisas lá devem custar pelo menos 8$000 e daí você teve um lucro de pelo menos 3$000…. E agora que já sabes de todas tuas dívidas espero que venhas liquidá-las plenamente.
Sabe, que não é dinheiro que nós estamos pedindo, mas no Natal você terá que vir para casa e trazer alguma coisa muito boa. Ainda não pensei o que eu vou querer, mas tão logo que eu resolver eu te escrevo, pois tempo ainda temos bastante até lá.

No primeiro domingo de abril eu fui aceita na Igreja mediante a profissão de fé, mas o batismo ainda não pôde ser efetuado e não sei quando vai ser. O pessoal do Rio Novo está esperando o Deter e ninguém sabe quando ele virá. Mas, já convidado ele já foi.

O tempo está muito instável, na semana passada foi seca a semana inteira e esta semana chove e faz sol sem qualquer ordem. Hoje estivemos cortando arroz, pois os mesmos estão maduros. Este ano o arroz nem do cedo nem do tarde não se desenvolveu bem devido que no verão houve excesso de chuvas. Também muitas espigas de milho estão podres.

Durante a Páscoa o tempo foi razoavelmente bom e durante a primeira Festa [na Sexta feira Maior] a Senhora Leimann veio nos fazer uma visita e é a primeira vez que ela sai, depois do período que esteve doente. A última vez que ela tinha saído de casa foi no enterro da senhora Bankowitz em 12 de outubro passado e agora ela está tão recuperada que já anda a cavalo.

Bem agora eu acho que chega de imprimir, pois você não tem mesmo tempo de ler.
Na semana passada a Olga mandou uma carta qual eu acho que já chegou lá. Na Sexta feira Maior ela recebeu a tua carta escrita no dia 31 de março.

Escreva bastante, pois o Wictors não conta nada.

Aqueles estudantes de Rio Branco também falam o brasileiro? Em que classe ou período eles estão? E como eles se chamam? O Looks também foi?

Este ano ainda você mesmo lava a sua roupa?

Você este ano não está aprendendo violino? No nosso conjunto de violinos daqui do Rio Novo o Rubis [Roberto Klavin] deixou de tocar porque se acha muito velho demais.

Muitas amáveis lembranças dos outros de casa e minhas também.

Lúcia
[Escrito abaixo a lápis]
Hoje recebi a tua carta escrita no dia 14 de abril. Muito obrigada. A resposta escrevo em outra ocasião.

..subir em algum morro bem alto e ver se avista um navio cheio de letos..De Olga Purim para Reynaldo Purim 1922

Rio Novo 11 de abril de 1922

Querido Reynhold!

Primeiramente envio muitas lembranças. Pensando bem, eu não tinha nenhuma obrigação de escrever esta noite, pois tu estás devendo respostas de duas cartas, uma escrita no dia 13 e outra no dia 23 de março.

Aquele grande pacote com jornais e outros impressos recebi no dia 26 e muito obrigado por tudo. Agora nós temos dois prospectos do seu Colégio. Vocês deverão ser mais de mil alunos com tantos letos que foram para lá. Você conhece aquele alemãozinho de Paranaguá, o João Henke. Este é um dos que vieram para as Conferências da Convenção no Rio Novo.

Bem desta vez eu terei alguma coisa de novo: – - O tempo esta semana está mais ou menos bom, pois chovido tem pouco.

Uma coisa muito importante é que a universidade de Rio Novo depois de 8 meses de aula, já encerrou o ano escolar e os Rockfellers já estão prontos para enfrentar a vida. [Parece que naquela época a neurolingüística não era muito difundida. Alguns professores tentavam fazer com que os alunos adotassem os grandes homens como modelo e assim como que, atrelando o seu carro a uma estrela, mas não eram bem compreendidos por todos]

O próprio Treiman, como fosse acossado por fogo, foi abrir uma escola na casa do João Leepkaln lá no Rodeio das Antas para os filhos dos brasileiros. Isto faz parte da filosofia dele de não maltratar os alunos por muito tempo com tanta matéria.

O Karlos Sanerip já voltou do Quartel onde esteve servindo o Exército. O Augusto Klavin que estava em Kuritiba servindo o exército, agora está fazendo “manobras” no Rio Grande do Sul junto com a fronteira da Argentina que são muito necessárias para gastar o dinheiro do governo. Este ano foram convocados o Wilkan Karkles e o Kirz Stekert, isto é dos letos. O Wilks está muito satisfeito, pois só assim poderá conhecer o mundo ai fora e ainda sem pagar a passagem.

A Igreja convidou o Deter [Deter era um missionário batista norte americano trabalhando no campo Paraná Sta. Catarina] para visitar o Rio Novo, pois o Lupers tinha prometido vir, mas, acabou viajando para outro lugar. Quando o Deter vier, vai haver uma festa de Batismos dos 10 novos membros que foram aceitos pela Igreja. São eles o Willis Klavin, o Willis Slengmann, o Edward Karklin, o Victor Maisin, a Hulda Maisin, o Karlis Leepkaln, o Alfredo Burmeister, o Harris Feldberg e os nossos Lucija e o Arthurs.

Outra novidade é que na semana passada recebemos qual não estávamos esperando. Veio do nosso parente (tio) Jekabs Purens da Letônia. Ela conta que eles estão determinados e convictos da necessidade de vir embora para o Brasil. Eles estão todos vivos e sãos.

O irmão dele, o André é que está numa situação mais difícil, pois mora na Rússia, junto a fronteira da Letônia onde grassa muita fome e doença e nenhum socorro pode ser enviado para lá. Ele vai tentar passar para o lado de cá da fronteira e viajar junto para cá.

Pelo que ele fala ele pensa que o Brasil é do tamanho da Latvia, pois, pede que quando eles chegarem no navio cheio de letos, alguém vá ao seu encontro. Ele pensa que é como lá que o navio ou chega em Riga ou então em Leepaja, pois outros portos não existem e quando você pode pegar um trem e em poucas horas estar lá. Também não falam nada se eles estão vindo por conta própria isto é com dinheiro deles e nem quando e nem onde eles deverão chegar.

Mas aqui há outras pessoas que contam que o Inkis e o Malvess [ Malvess era do Rio Novo e agora agente de Imigração do Governo em São Paulo] conseguiram passagem livre, sem custo algum e por isso deverão vir muitos letos. O Malvess é novamente um agente de imigração do Governo e tem colocado anúncios para venda de terras no interior do estado de São Paulo em jornais alemães. Se eles realmente estão viajando livres por conta do governo é justo e certo que eles irão direto para São Paulo. Você sabe alguma coisa acerca deste assunto?

Pelo que o Jekabs escreve parece ou ele pensa que vem direto para o nosso lado. Mas diz, também que não sabe se nós estamos ainda vivos ou não e se nós estaríamos satisfeitos que eles viessem para cá. Também fala que lá as coisas não estão nada boas e sem muita esperança de alguma melhora. Diz ainda que teria muito que contar e perguntar, mas iria deixar para quando depois da chegada teria mais oportunidades para conversar. Pelo que parece ele pensa que São Paulo fica junto de Sta. Catarina, assim como a Vidzeme fica junto com a Kurzeme.

O Paps quer que eles venham para cá, pois se eles forem para São Paulo onde deverão ir muitos Letos é interior, terra totalmente desabitada, onde eles, com certeza vão sofrer penúria por não ter onde trabalhar para ganhar dinheiro, onde vender e onde comprar. Com certeza no Rio Novo será melhor. Nós ainda não respondemos, pois eles não pedem que façamos, pois é possível que eles já estejam em viagem para cá. Pois a carta tinha sido escrita em 22 de fevereiro de 1922. Então você poderia subir em algum morro bem alto e ver se não avista um navio cheio de letos e entre eles os nossos parentes, vindo para o Brasil.

Eu acho que não sabem que você ainda está estudando. Pode ser que eles não tenham a chance de conhecer o Rio de Janeiro. A não ser que ainda que levem a alguma Ilha das Flores onde dizem que as casas e alojamentos de quarentena estão sendo reformados

(Escrito na lateral)
Bem por hoje chega. Vou aguardar de você muitas novidades. O desejo de todos é que tenhas uma Feliz Páscoa. Olga.
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..estão brancas de flores e as abelhas zunem de tanto trabalhar.| De Olga para Reynaldo Purim

Rio Novo 3 de outubro de 1920
Querido Reini! Saúde!

As tuas carta recebi; aquela registrada no dia 23 de setembro e naquele mesmo dia mandei um cartão postal e enquanto em casa ficava admirando as maravilhosas belezas então no domingo recebemos os Jornais, então havia muita coisa para ler e resposta para a carta não valia a pena escrever, pois ninguém iria nestes dias para a cidade. Na noite de quarta feira recebi outra carta datada do dia 14-9-20 e neste mundo, não havia ordem nunca mais haverá, pois passa tempo que não aparece carta nenhuma e quando vem não para mais de vir e todas numa vez só. Muito Obrigado!

Você pede que escreva longas cartas, mas nas cidades grandes tudo é suficiente e as novas notícias custam caro e estas aqui do Rio Novo são baratas, mas, aqui as pessoas são mais egoístas que as de lá. — Você deve ter muito tempo para ler e então muito mais difícil ainda ter que responder e para isso você fizer em um só fôlego, poderá entrar num ritmo tão acelerado e que para isso não aconteça tem que se cuidar para não ficar doente. Que parece que é moda por lá.

Para aquele rapaz é bem provável que não seja possível escrever em leto, pois ele deve ter esquecido totalmente esta língua, porquê ele mandou também para você aquela publicação “Ver Berahter” qual também nós aqui, já tínhamos lido. Os amigos de Rio Novo para que ele os esqueceu completamente, porquê das Grandes Conferências e outros eventos significativos o Karlos, uma coisa ou outra sabia, mas muito pouco, parece que ele sabe mais através do que você escreve do que o pai dele escreve que é muito pouco.

Desta vez, não tenho nada que possa chamar de importante que possa te escrever, pois tudo continua como de sempre.

O tempo está muito instável. Na semana retrasada choveu muito. Mas no sábado, começou soprar um vento muito frio e no Domingo dia 26 de Setembro deu uma grande geada, tão grande que nem no mês de agosto, igual não tinha dado, pois naquele mês quase sempre foi bastante quente. Agora o pessoal fica reclamando que a geada matou isso e aquilo, mas na semana passada voltou ser tão seco e quente e então o pessoal aproveitou para queimar (fumegar) as coivaras e já neste Domingo foi tão quente como fosse em pleno Natal.

– Bem agora estamos em plena primavera e tudo está ficando verde. Os pessegueiros já tem frutos bem grandes e as laranjeiras apesar de ainda estarem repletas de frutas, estão brancas de flores e as abelhas zunem de tanto trabalhar. Também soltaram os primeiros enxames.

A nossa coivara este ano nós já derrubamos o capoeirão, já há bastante tempo e qualquer dia destes vamos queimar. Você perdeu a alegria de ter participado da derrubada, mas é claro, de qualquer modo, não vai perder a oportunidade de vir capinar. Agora que por 4$ pode-se comprar um boa enxada. Nós já plantamos o arroz e mandioca nós plantamos 7000 e teremos que plantar mais, pois nós já temos terra limpa e preparada. O milho faltou um litro para termos plantado uma quarta. Acho que capinar, você deverá ter esquecido, porque agora somente trabalhas com serra e esquadro.

Também chegando aqui poderias visitar o Grünfeldt e ensinar ou aprender algo. Agora ele vai emproado e faceiro, pois este ano, 4 ou 5 rapazes de Rio Novo foram mandados pelos seus pais para estudar com ele. Semanas atrás fizeram exames. O professor sempre pronto. É só ir na casa dele. Também quando o Swichurbis [arco de pua] está de mau humor mais parece um leão rugindo e ai é melhor vir embora pois não se consegue aprender nada. Talvez ele seja duro para os “mujiques” [classe social baixa no antigo império russo] aqui do interior e seja mais diplomata com você que é um citadino.

Na Quarta feira passada houve a festa de casamento do Augusto Felberg com a Elvira Auras e agora moram na nova casa, bem ali no morro, onde era a velha, mas esta casa nova é uma grande casa de tijolos.

Neste Domingo será a festa de Bodas de Prata do Seeberg. Logo estará chegando o dia da Festa de Aniversário da União de Mocidade e o Osvaldo Auras como regente está ensinando hinos novos. Vamos ver como vai sair esta festa e se vai ser igual a de Nova Odessa que foi estupenda. Mas lá a festa foi prestigiada pelos grandes heróis de Mãe Luzia; o Janelis Klava o grande e instruído músico, cantou um solo e dedilhou a sua guitarra. Ele se amarrou tanto tempo em sua cantoria que não saia direito, tanto que muitos rapazes começaram a assobiar e então ele terminou e desceu todo lampeiro pensando que tinha agradado demais.

Agora também o Arnolds Klavim debandou para Nova Odessa. No mês de julho do ano passado ele passou um período em Porto União, parece que bebeu toda boa água e respirou todo bom ar, pois já faz tempo que saiu a notícia que ele foi para o Paraná, porquê as serrarias de Porto União faliram e os Letos de lá debandaram.

O Revmo. Mc Cabes ainda não chegou. O Butlers escreveu que ele viria com a esposa, primeiro para Rio Branco e depois ele viria para cá e se o clima for saudável ele vai ficar algum tempo por ai. O Butler o conheceu na Festa de aniversário da Igreja de Paranaguá, ele não é pregador Batista, mas sim da Igreja dos Irmãos muito conhecidos na Letônia com grandes expoentes em todo mundo como o Dr. Bedekrs e Juris Müller. Este senhor mora e trabalha há muitos anos no Brasil.[ Menonitas]

Bem desta vez chega. Esta carta foi bem conforme o modelo, mas como você não liga muito para modelos e se você não responder com uma do mesmo tamanho eu também não vou escrever tanto. O que você pensa fazer nas Férias?

Como é depois de tanto estudar você não poderá apanhar o seu violino e dar aulas de música? É fácil de conseguir acordoamentos de violino e são muito caros?

Escreva bastante e daqui tudo que estará acontecendo eu vou relatando. Lembranças do Romão [ Romão Fernandes foi meu avô materno] e de outros de Larangeiras. Hoje eles tiveram todos aqui no culto da Igreja e insistiram que eu não esquecesse de menciona-los. O Romão planeja, ele mesmo escrever uma carta para você. O Roberto é encarregado destas lembranças mas a gente não sabe se ele te escreve.
Lembranças de todos os de casa, aqui ficamos aguardando novas notícias. Desejamos tudo bom para você. Olga.

( Escrito á lápis) Junto com essa através do Pinho estamos mandando 200$000, pois assim vai mais seguro.

A Lancha estará pronta … | De A.B.Deter para Reynaldo Purim

CARTA EM PORTUGUÊS APRESENTADA NA GRAFIA ORIGINAL

Curitiba , 29 de Set. De 1920.

Presado irmão Reynaldo; A tua carta veio há dias porem estive de viagem e não podia responder logo.

Eu queria falar com o irmão sobre as férias. Devemos fazer logo os planos para as ferias e se o irmão podia ajudar nos esta vez não posso dar muito dinheiro mas um pouco mais que as despezas. A lancha estará pronta e poderemos fazer o trabalho a beira mar.

Devemos fazer alguma cousa com o trabalho em Imbytuba . Escrevi ao irmão L.per acerca disto e estou esperando resposta. Quando é que o irmão estará livre da escola? Quanto tempo pode dar ao trabalho de nosso campo? Vou mandar o dinheiro para a música. Me diga quanto é que devo. Se possível estuda o órgão e depois pode aprender outro instrumento porem o irmão vai fazer o que acha melhor neste sentido.

Baptizei 19 pessoas nestas duas semanas p.p. Deus está nos abençoando em todo nosso campo. Tenho que ir logo por esta carta no correio e por isso paro aqui.
Do irmão na fé

A B. Deter

Published in: on 2011/11/11 at 20:14  Deixe um Comentário  
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