..e soprava aquele vento quente do lado das Serras. | De Olga Purim para Reynaldo Purim – 1921

Rio Novo 9 de junho de 1921

Querido Reini!

Recebi a tua carta escrita em 14-5-21 na quarta feira passada e hoje já estou escrevendo a resposta. Rápido não é?

O tempo aqui está muito seco e também muito frio. Está faltando água para os moinhos[atafonas].

Também as notícias aqui são poucas, secas e engeleradas. Nós estamos passando bem, seria bem melhor se não tivéssemos pegado gripe com tosse. Espero que ao ler esta carta você não se esfrie e não pegue um resfriado também.

Hoje está fazendo frio, mas não tão grande como o de ontem.. Hoje amanheceu com uma grande geada. O tempo está muito instável, na semana passada estava quente e soprava aquele vento quente do lado da Serra, mas logo ficou nublado e ameaçou chuva inclusive caíram alguns pingos e em seguida começou rapidamente o grande frio.

No Rio Novo, nada de novo. O Limors está de volta por aqui. Ele diz que viajou e conheceu 11 cidades acabando de volta depois de ter gasto todo dinheiro.
Terreno, ele também não tem mais nada por aqui. O restante que o italiano deve ele só vai receber em agosto. Então ele vai embora para a Letônia. Enquanto espera, ele está morando com os Grunskis. Ele está com aparência mais cuidada.

O Franzis está em Nova Odessa.

A Festa do Verão [Pentecostes] já faz tempo que passou e não foi nada especial, porque grande parte do pessoal foi para a Mãe Luzia. Aqui não há festas uma atrás da outra como lá no Rio.

A escola semanal ainda não começou, mas vai logo começar se algum gato não atravessar o caminho. Quem está fazendo muito empenho é o Salit e o Vilis Balod. Dizem que se tivessem escola aqui os nossos filhos seriam Edisons, Franklins e Rockfeleres as dúzias. Eles também nasceram em áreas rurais

Alguns não se lembram e não dão valor aos seus professores. Aqui vão fundar uma associação e colocar o Treiman como professor. Já tem gente que acha que o Treiman é insuficiente e poucas seriam as crianças que iriam procura-lo.

E agora aqui perto dos Mason, defronte a Katy, os italianos construíram uma bonita Escola e a professora é a irmã da antiga agente dos Correios. Esta escola é mantida pelo Governo. Os Italianos não querem muito além de aprender ler, escrever e contar.

Então os teus antigos colegas, pouco, te escrevem. Eu sei muito pouco, mas mais do que você. O Robert [Klavin] com aquela preocupação de ganhar dinheiro fica agarrado aos seus esquadros, serras, plainas e formões e pouco se lembra de escrever.

O Fritcis [Leiman] [ Ele casou com Lucia Osch] ainda não te convidou para o casamento dele? Faz tempo que ele foi pego então é inútil ficar esperando-o na Escola. Ele mandou uma fotografia para o Robert e é possível que tenha lembrado de mandar para ti também.

Bem por hoje chega. Quando está carta chegar você está na época difícil, quem sabe sem tempo de até de ler esta carta devido as provas. Faz duas semanas que mandei uma carta quem sabe você já a tenha lido. Este ano o Correio não perdeu nenhuma carta. Escreva bastante contando sobre as grandes festas que irão acontecer por lá.

Quem serão as pessoas importantes que participarão? Este ano o Karlos [Leiman] também lá estará? No Programa diz que o Butler também estará por lá. O Pastor Inkis de Riga deverá estar chegando ao Brasil para ir para Nova Odessa. Quem sabe você tenha a oportunidade de encontra-lo. Fico aguardando longa carta sua e faço votos que tudo vá bem.

Com sinceras lembranças. Olga.

Published in: on 2012/01/04 at 20:59  Deixe um Comentário  
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Depoimento de J. A. Zanerip | Lua de mel

Agora, após a tempestade, cada um procurou o seu ninho. Os alemães instalaram as suas vendas no outro lado do rio Mãe Luzia, por sentirem-se mais protegidos dos ataques dos bugres, como eram chamados os índios.

Os Zanerip, sendo pescadores e construtores de suas próprias embarcações na Letônia, no mar Báltico, e muito acostumados a lidar com madeira, construíram uma ótima lancha para atravessar o rio e ser usada pelas pessoas que iam fazer compras nas vendas dos alemães do outro lado do rio. Mais tarde construíram uma balsa para permitir a passagem de carroças de quatro rodas puxadas por cavalos, carregadas de mantimentos, muito usadas pelos alemães, e tudo de uma só vez.

Assim a vida corria monótona; menos mal, pois recebiam e faziam muitas visitas aos letos que ficaram morando em Mãe Luzia. Como esses eram todos batistas, meus pais quiseram ingressar também na igreja batista. Mas havia um problema: eles só eram casados na igreja luterana, o que naquelas épocas era válido na Europa, mas não diante das leis nacionais do Brasil.

A igreja batista achou que as leis brasileiras deviam ser respeitadas e que era necessário regularizar a situação. Desse modo foi realizado um casamento um tanto curioso, os Zanerip fazendo sua “lua de mel” já com sete pimpolhos, faltando somente a caçulinha.

Depois de tudo posto em ordem, faleceu o nosso pai, desnorteando a nossa vida.

Agora os filhos mais velhos, cansados do isolamento dos outros, do nosso povo, resolveram vender tudo e procurar um terreno mais próximo ao Rio Novo. Acharam um terreno bastante montanhoso, mas com uma várzea muito fértil, junto às barrancas do Rio Laranjeiras.

Depois foi a vez da vinda da mudança, que veio de carro de boi. Levou dois dias e uma noite para fazer o percurso de Araranguá até o Rio Laranjeiras. As terras compradas pela minha mãe, Eva Grimberg Zanerip, foram adquiridas em prestações [anuais] de R$200.00 [duzentos mil reis], e já eram de segunda mão.

Aqui terminam as histórias contadas pelos meus familiares e não vividas por mim. Agora a nova vida em Rio Laranjeiras.

* * *

[continua...]

Igual à de um colono qualquer | Fritz Jankowski a Reynaldo Purim

Rio Branco, 27 de julho de 1920

Querido amigo Reinold:

Recebi de você duas cartas, uma já há tempo, logo que cheguei de Rio Novo, e uma uns cinco dias atrás. Muito grato por tudo: notícias, conselhos e inquirições. Nesta carta quero no mais possível transmitir minhas emoções de coração aberto.

Você pergunta qual o motivo da minha tristeza e depressão. Agora quero te asseverar que nenhum mortal exceto você tem ouvido de mim tantas lamentações e tão grande falta de esperança.

O principal motivo que deixou o meu coração tão desesperançado e sombrio que deixou rastros negros na carta que naquele momento dramático te escrevi — você, sendo meu amigo; sendo que nossos pensamentos e opiniões sempre coincidiam como com nenhuma outra pessoa, você em quem eu via os hábitos e sentimentos muito mais completos, maduros e fortalecidos do que os meus, — é que eu tinha a sensação de ter cometido um erro irreparável em ter abandonado a escola [o Seminário].

Por quê? Por causa de insignificantes e infundados motivos. Falando mais claramente, por enganos traiçoeiros [glhenvilibas]! As palavras escritas em Jó 5:2 eram para a minha alma, amarradas como uma pedra que me arrastava para as profundezas insondáveis e aniquilava minha vontade de viver nesta triste condição.

A isso se juntaram desagradáveis situações na vida de minha família, que ameaçavam roubar as minhas últimas oportunidades de seguir o caminho que tinha escolhido, isto é, o de continuar os meus estudos.

O que aconteceu foi que minha irmã se enamorou secretamente de um jovem alemão, Albert Richter, um sabatista. Quando isso veio ao conhecimento público aquela notícia levantou-nos outros grandes descontentamentos e contrariedades.

Depois de uma longa série de argumentações e conselhos ela cedeu e deixou este rapaz — porém não convencida de que estivesse fazendo algo de errado ou de mau, e sim para obedecer a vontade do pai e dos demais parentes.

Mas não muito tempo depois algo ocorreu através de uma jovem luterana muito alegre e comunicativa que passou a frequentar os nossos cultos: uma cantora de primeira classe e colaboradora da União dos Jovens da Igreja, mas pelos meus pensamentos toda essa atividade era como toucinho na ratoeira para pegar os ratos.

Minha irmã ficou enamorada do irmão desta moça, Karlos Ignowski, e contra este novo relacionamento não há contrariedades.

Esses acontecimentos para nós são amargos, mas sem nenhuma saída, pois daqui há poucas semanas minha irmã Emília com o mencionado jovem vão se comprometer através do enlace matrimonial.

No cartão estavam anotadas as alternativas nas quais durante a viagem mais uma vez recapitulei, e que são as seguintes:

Se nós aqui quisermos restabelecer a nossa vida, eu e meu pai, tenho que assumir e não há meio de fugir da direção das atividades, pois o pai não quer mais, impedido também pela doença.

A outra alternativa seria vender. Poderia vender e voltar para a escola, mas de onde veria o sustento? E onde ficaria o meu pai? Tentamos arrendar a nossa propriedade, mas não apareceu nenhum interessado.

Então meu pai disse:

– Agora meu filho, tu tens que se preocupar pela nossa casa e pela nossa vida diária. Faça tudo como melhor te aprouver, pois destas preocupações quero ficar livre e sob sua responsabilidade viver os meus dias até a velhice. Espero que este fardo não seja pesado demais por minha causa.

Considerando como santa a responsabilidade em atender o desejo do meu velho pai, ainda assim procurei alguma alternativa para conseguir resolver este problema. No fundo mesmo, queria ficar livre desta responsabilidade e dessas preocupações.

Também reconheço que Deus providencia nossa vida em todas as circunstâncias e tudo isso quero aceitar com gratidão, como vindas diretamente de Suas Santas Mãos.

Sob o outro aspecto da vida diária, com alegria posso dizer que eu estou indo muito bem. Minha atividade diária é igual à de um colono qualquer: derrubo matas e capoeiras, arranco tocos para facilitar o preparo da terra, planto árvores frutíferas, negocio o meu arroz etc.

Na igreja ocupo o cargo de Superintendente da Escola Dominical e Secretário Geral da igreja. Damos graças a Deus por nos ter maravilhosamente guiado e pelo período de paz que reina em nossa igreja, pois no passado houve um período um tanto difícil.

Também hoje a harmonia não está completa, pois uma parte da igreja tem por lema trabalhar por missões e a outra tem por lema descansar. Mas na maioria com tranqüilidade concordam, esforçando-se para arrastar todos juntos ao cumprimento do desígnio de uma igreja cristã, que é proclamar Cristo através de missões.

A Escola Dominical vai até de certo modo muito bem, mas o que preocupa é a falta de um obreiro qualificado para cuidar dos alunos que receberam os ensinos e correm o risco de se perder. A Convenção das Igrejas Batistas do Paraná e Sta. Catarina estão convidando para o próximo ano o irmão Carlos Leimann, e estão oferecendo para escolher como centro de atividades os seguintes lugares: Laguna, Itajay e Joinville. Nós estamos torcendo que ele escolha Joinville, pois para nossa igreja seria muito bom.

Sobre a Convenção, uma vista geral e completa pode ser acompanhada lendo “O Baptista”.

Gostaria de saber: que mudanças houve no Colégio e no Seminário? Você ainda trabalha na igreja de Pilares? Como vai a nova Escola Dominical que começaste no ano passado?

Peço que me desculpe pela curiosidade e pela tão longa carta.

Com muitas lembranças, seu amigo

Fritz Jankowski

Casamento de Eugenio Elbert e Alida Slengman, 1938

Casamento de Eugenio Elbert e Alida Slengman, em 1938. Clique na imagem para ver identificadas algumas pessoas na foto.

Imagem cortesia de Ney Steckert.



Published in: on 1938/10/05 at 16:11  Comentários (2)  
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Pelas montanhas e vales do sul do Brasil, 3

continuação da parte 2

3

Segunda-feira, dia da chegada do casal de noivos. Já era noite quando os aguardados chegaram.

Agora outra alegria e cumprimentos. O Artur elegeu sua companheira [Vergínia Fernandes] entre o povo brasileiro; filha de pais crentes e ela também crente no Senhor Jesus, rosto amável, eficiente e ágil nas lidas domésticas.

A cerimônia das núpcias estava prevista para a sexta-feira daquela mesma semana. Até o dia do casamento havia um considerável movimento na cozinha com cozidos e assados; toda a casa exalava de agradáveis aromas do que a cozinha estava a produzir.

Sexta-feira de madrugada o novo casal e seus acompanhantes partiram a caminho da cidade de Grão-Pará, para o cartório do Registro Civil, a fim de cumprir os requisitos legais. Nós, os idosos, ficamos para aguardá-los.

Houve troca de opiniões sobre a parte religiosa do enlace matrimonial. A parte legal será cumprida, mas como será a outra? Pastor, na ocasião, não havia. Finalmente ficou decidido que caberá a mim esta incumbência; o povo crente não costuma ficar satisfeito sem que suas promessas e objetivos estejam selados com a palavra do trino Deus. Seus desejos são que este compromisso esteja confirmado com as orações, bênçãos e hinos, porque estes tesouros o Senhor tem dado em abundancia.

A noite chegou com a casa repleta de convidados. Vieram também os brasileiros, parentes da noiva. Após alguns momentos, acabavam de chegar o par de noivos e seus acompanhantes.

Agora a casa estava em ordem. Com hinos começamos, e o que acima afirmamos estava completo. Divino e santo momento.

Deu-se inicio aos amáveis cumprimentos ao novel casal. Todos externaram seus votos de felicitações e incentivo ao novo caminho.

A diretoria da Igreja decidiu me convidar para dirigir os serviços religiosos aos domingos, durante o período da minha permanência junto ao meu irmão. Comprometi-me a fazê-lo e a também visitá-los em suas casas, com eles orar a Deus e ler a Sua palavra. Fazendo isto experimentei grandes bênçãos. Vejo e sei que tal trabalho tem grande significado – cuidar da Igreja e fortalecer na fé.

continua aqui >

Para ler do começo clique aqui
Pelas montanhas e vales do sul do Brasil
Por Jekabs Purens [Jacó Purim]

Publicado em série na revista “Jaunais Lidumnieks” (O Novo Desbravador), entre 1932 e 1933
Cedido por Brigitta Tamuza do “Brasiljas Latviesu Draugu Fonds”
Traduzido por Valfredo Eduardo Purim
Digitado por Lauriza Maria Corrêa
Revisão e notas por Viganth Arvido Purim

Published in: on 1932/10/08 at 21:42  Deixe um Comentário  
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Família Purim, 1931

Foto tirada em 25 de setembro de 1931, pelo ensejo do casamento de Arthur (Otto) Purim e Vergínia Fernandes Purim, oficiado por Jekabs Purens. Para ver a identificação das pessoas na foto, clique uma vez sobre a imagem.

Mais sobre o casamento aqui: http://rionovo.wordpress.com/1932/10/08/pelas-montanhas-e-vales-do-sul-do-brasil-3



O verso diz: “Como amável lembrança para o Reinaldo, do Papai e da Mamãe. Foto tirada em 25 de setembro de 1931″



Published in: on 1931/09/25 at 05:34  Deixe um Comentário  
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Casamento de Attis [Otto] Slengman e Alida Klavin, 1928

Casamento de Attis [Otto] Slengman e Alida Klavin, igreja batista do Rio Novo, fevereiro de 1928.

Da esquerda para a direita, na fila da frente, o terceiro homem sentado com o violino no colo é Otto (Artur) Roberto Purim, irmão de Reynaldo Purim (e pai de V. A. Purim, curador deste blog). Acima dele está a mãe da noiva, e acima dela Lucia Purim, irmã de Artur e de Reynaldo. O homem de chapéu preto e barba abaixo da terceira janela é Jahnis (João) Purim, pai de Reynaldo, Olga, Lucia e Artur.

Para ver mais pessoas identificadas na foto, clique na imagem abaixo.



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Published in: on 1928/02/24 at 17:42  Deixe um Comentário  
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